É recente a publicação entre nós de duas das mais relevantes obras da literatura ocidental, Do Ritual ao Romance (traduzido pelo editor, Manuel S. Fonseca) e O Ramo de Ouro. Lembro-me de ter lido um e o outro durante o tempo da Faculdade, lá pelo começo dos anos 90, em exemplares bem gastos da biblioteca de estudos anglísticos da Faculdade de Letras, em Lisboa. Agora, a editora Guerra e Paz está a editar as suas traduções (O Ramo de Ouro em dois volumes, traduzidos por Maria Ferro e Sónia Amaro) e estou curiosa por (re)ler sobre mitologias, antropologia e a cumplicidade destas áreas vertida num poema que, no fundo, consolidou a fama dos livros de Jessie L. Weston e James Frazer. O impacto que tiveram em T. S. Eliot lê-se na relevância que, em The Waste Land, têm as fontes, os arquétipos, as raízes culturais e poéticas. As novas traduções possibilitam olhar (de novo) para O Ramo de Ouro, para a obra de Weston (Do Ritual ao Romance), que também dele resultou, mas são igualmente instrumentos de releitura da obra de Eliot.

O Ramo de Ouro é uma espécie de pano de fundo, de reservatório de exemplos, comparações e hipóteses que alimentaram gerações de pensadores e que Jessie Weston reconhece como guia intelectual: “Sem a orientação da obra The Golden Bough, provavelmente eu (...) estaria ainda vagueando pela floresta de Brocéliande”, escreve Weston no seu prefácio (p. 17 da edição da Guerra e Paz). O que Frazer constrói, ao longo dos milhares de páginas que, tal como na primeira edição, de 1890, em Portugal serão dois volumes, tem sido fundação tão sólida para o pensamento atual que talvez seja visto como dado adquirido: a ideia de que os vários rituais mágicos e religiosos do mundo partilham estruturas comuns e atravessam culturas e épocas. Como se os sacrifícios de reis e plebeias, a morte e o renascimento de deuses, todos os tabus e feitiços formassem uma gramática universal do sagrado. Não admira que, quando edita o seu livro em 1920 (cerca de um ano e pouco antes de Eliot compor The Wasteland), Weston já o tenha como pedra basilar para olhar para o mundo ritualístico da corte do Rei Artur. A tese dela é que os romances do ciclo arturiano (conhecidas também como do Santo Graal) não surgiram de uma espontânea geração cristã, mas resultam da sedimentação literária de antiquíssimos rituais de fertilidade, de cultos de vegetação, de mitos de morte e renascimento, nos quais a figura feminina é mais relevante do que muitas versões têm feito crer. Para a autora, uma lança ou um cálice podem ser símbolos cristãos, sim, mas denunciam também vestígios arcaicos, anteriores à Cristandade que os re-significou.

É estimulante que as duas publicações saiam quase contemporaneamente: se uma revela o método comparativo, antropológico, abrangente, o outro funciona como caso de estudo que aplica e testa esse método através do exemplo da literatura medieval, ao mesmo tempo que reconta e recupera mitos em transformação permanente. A ocasião desta tradução portuguesa devolve aos textos de Weston e de Frazer uma atenção que talvez seja necessária para compreender como se pensa hoje, que imaginário é o do mundo em que vivemos, que sentido é possível fazer, para parafrasear Eliot, dos fragmentos que diariamente são atirados para as nossas ruínas.

Ana Isabel Soares é professora

Crónica publicada em:

Foto: Vasco Célio