A mim que desde a infância venho vindo
como se o meu destino
fosse o exato destino de uma estrela
apelam incríveis coisas:
pintar as unhas, descobrir a nuca,
piscar os olhos, beber.
Tomo o nome de Deus num vão.
Descobri que a seu tempo
vão me chorar e esquecer.
(...)
o céu é bruma, está frio, estou feia,
acabo de receber um beijo pelo correio.
Quarenta anos: não quero faca nem queijo. Quero a fome.
Adélia Prado

Ontem, uma amiga perguntava: quantos anos fazes mesmo? Hesitei na resposta. São muitos e não gosto da ideia de vê-los crescer, ano a ano, o que faz parte do curso normal da vida. E é sinal de que estamos vivos. Há muitas frases feitas sobre o envelhecer; posso garantir que todas são, ao mesmo tempo, verdadeiras e mentirosas. Diz-se que há um lado bom – ainda não descobri qual é. Talvez a prática quotidiana da máxima “quem não me quer não me interessa” seja um ganho. A consciência do passar do tempo cria em nós a urgência de não perder tempo. De não gastar este bem precioso com gente desinteressante, com quem não gosta de nós (pois está muito claro que quem não gosta de nós são as pessoas mais aborrecidas e desinteressantes do mundo). Antes do meu aniversário, começo a fazer contas à vida. É um exercício quase involuntário; sem dar por isso, começo a pensar e a tentar perceber se as coisas têm corrido como eu desejava. De facto, dou-me conta de que vivi sempre sem planos: as coisas foram acontecendo e eu fui vivendo. Nunca pensei em ser professora, nunca pensei em vir viver em Portugal; tomei decisões que me tomaram, desviando o curso do meu caminho. De um caminho que, verdadeiramente, se tem feito ao longo dos passos. Há uma grande distância entre aquilo que sonhamos, quando crianças, e aquilo em que efetivamente nos tornamos. Não sei se, neste instante, estou entre uma coisa e outra. Já não me lembro muito bem quais eram os meus sonhos, por isso não posso ter a certeza de tê-los realizado. Ando desmemoriada.

Outro dia, falava com uma amiga sobre uma fase da minha vida muito intensa, entre os 20 e os 24. Tinha acabado a licenciatura e comecei o mestrado. Fui viver em São Paulo, que foi, isto sim, um grande sonho. Foi um período duro, pois, como disse Nelson Rodrigues, “a pior forma de solidão é a companhia de um paulista”. É uma cidade que nos devora: cercada de cinza por todos os lados, até o céu é cinza. Mas é o umbigo do mundo. Um ponto de convergência de tanta coisa que acontece ao mesmo tempo. Foi o umbigo do meu mundo, pelo menos. E fez com que eu visse a real dimensão de todas as coisas. Depois de São Paulo, a vida. Que me foi correndo, mal ou bem. Que me foi correndo. E agora, cá estou. A minha idade assusta-me; talvez esteja em pleno inferno astral. Agora tenho a faca e o queijo na mão. E quero a fome.

Mirian Tavares é professora

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