Mais do que apenas evocar ou recordar o 25 de Abril, é preciso continuar a afirmar a validade deste projeto coletivo de sociedade e participar na sua permanente construção. Esta foi a mensagem dominante nos vários discursos proferidos na Sessão Solene do 25 de Abril, que, em Lagos, foi, uma vez mais realizada em espaço público, com a intervenção dos órgãos políticos do município, da Assembleia da Juventude e das coletividades locais.
As comemorações oficiais desta efeméride começaram bem cedo, na praça mais central da cidade, com o hastear das bandeiras ao som do hino nacional, interpretado pela Banda Filarmónica da Sociedade Lacobrigense 1.º de Maio e Grupo Coral de Lagos. A largada de pombos pelo Clube Columbófilo de Odiáxere, num ato simbólico de evocação da paz, e a interpretação «Grândola Vila Morena», tema de Zeca Afonso escolhido pelo Movimento das Forças Armadas como segunda senha da Revolução dos Cravos, antecederam as intervenções dos grupos políticos com assento na Assembleia Municipal (CDU, LCF, CHEGA, AD e PS).
Coube ao presidente da Câmara Municipal fechar as intervenções desta cerimónia comemorativa, não sem antes fazer um amplo agradecimento à Assembleia da Juventude pelo trabalho desenvolvido ao longo do ano letivo, o qual permitiu uma sessão de debate bastante viva no dia anterior, assim como às coletividades culturais, recreativas, desportivas, IPSS, forças de segurança, Bombeiros Voluntários de Lagos, Polícia Municipal e demais entidades presentes na praça, que todos os dias trabalham em prol da comunidade. Hugo Pereira dirigiu, ainda, uma mensagem de reconhecimento aos anteriores presidentes de câmara, respetivas equipas políticas, demais ex-autarcas, serviços e trabalhadores municipais pelo trabalho desenvolvido ao longo dos últimos 50 anos.
Recordando o 25 de Abril de 1974 como o dia em que Portugal escolheu a liberdade, em que o povo recuperou a sua voz e nasceu o regime democrático, o autarca lacobrigense lembrou, também, que a “Democracia não é um dado adquirido; é uma construção permanente, exigente, viva e inacabada, que garante a liberdade de expressão, protege os direitos humanos e respeita a diversidade, se faz com participação, responsabilidade e o compromisso de não desperdiçar o legado da coragem dos militares e de um povo inteiro que a conquistou”. O presidente da autarquia aproveitou a ocasião para alertar para os riscos, reais e atuais, decorrentes da mudança acelerada e do uso que possa ser feito do avanço tecnológico, que tantas possibilidades abre, podendo “aproximar-nos ou dividir, informar ou manipular, libertar ou controlar”, pelo que o mesmo “só faz sentido se estiver ao serviço da dignidade humana”.
A instabilidade internacional, os conflitos e tensões, a paz ameaçada, os discursos divisionistas, o imediatismo em detrimento da reflexão e o confronto em substituição do diálogo, foram igualmente mencionados como perigos latentes para a ordem mundial e a saúde dos regimes democráticos, afirmando, por isso, a necessidade de afirmação de uma Europa coesa, forte, solidária e imbuída de uma visão estratégica comum, cujos alicerces começam em casa, dentro das fronteiras nacionais, construindo um país mais justo, mais competitivo e mais inclusivo, que valorize o trabalho, o mérito e a responsabilidade, para dar substancia real à liberdade conquistada. Hugo Pereira lembrou, ainda, a Constituição da República Portuguesa e o Poder Local Democrático como “traves-mestras da nossa Democracia”, a primeira por ser o garante dos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos e não um problema, e o segundo por ter sido o motor de aproximação da Democracia às populações, melhorando a vida concreta das pessoas.
O autarca concluiu a sua alocução referindo-se aos desafios que Lagos enfrenta, entre os quais a habitação, a prioridade mais urgente, o equilíbrio necessário face à pressão urbanística e turística, assim como a sustentabilidade ambiental e a preservação da identidade histórica e cultural, contando com a participação de todas as pessoas - as que aqui nasceram e as que aqui escolheram viver e trabalhar – para construir um futuro com mais qualidade de vida e mais oportunidades.
Antes disso já tinham usado da palavra a 1.ª secretária da Assembleia Municipal de Lagos e os representantes dos cinco grupos políticos com assento neste órgão, assim como as bancadas da Assembleia da Juventude. Pelo meio, os mais jovens tiveram a oportunidade de mostrar o que é para si o 25 de Abril. A bancada do Agrupamento de Escolas Gil declamou o poema «O Despertar do Cravo», da autoria dos membros da Assembleia da Juventude Rita Palma, Raquel Marques e Leonor Quaresma, acompanhados à guitarra por Ruben Murphy, que interpretou o instrumental de «Pedra Filosofal». Por sua vez, a bancada do Agrupamento de Escolas Júlio Dantas, através das alunas Miriam Oliveira e Suri Gorjão, recitou dois poemas de Manuel Alegre («Liberdade» e «Regresso») e um excerto da estância 37 do canto IV de «Os Lusíadas».
As celebrações estenderam-se ao longo de todo o dia com uma visita guiada, num percurso pelas memórias do 25 de Abril, o tradicional almoço comemorativo, e as atividades desportivas tendo como protagonista o Clube de Futebol Esperança de Lagos a marcar o período da tarde, antecedidas pela inauguração do novo relvado do Estádio Municipal Fernando Cabrita. Na agenda desta efeméride a cultura também esteve presente, com o concerto «Vozes da Liberdade», apresentado no Centro Cultural pela Orquestra Ligeira de Lagos. Momentos emotivos foram vividos através das memórias pessoais partilhadas no Encontro Comunitário decorrido no edifício A Paragem, em Barão de São João, onde não faltou a música, com a atuação do Coro da Primavera e temas de Zeca Afonso interpretados por Pedro Pereira (maestro do Coro). Nesta sessão houve, ainda, poesia dita com sentimento da autoria de Rosa Roxo, figura emblemática de Barão de São João.
