Deixar o carro em casa e adotar a bicicleta como meio de deslocação quotidiana é mais do que uma escolha saudável. É, inevitavelmente, um desvio: uma forma de ir por outros caminhos e ver o que, de outro modo, não veria.

No meu caso, as duas rodas devolveram-me aos trilhos da infância e da pré-adolescência. Curiosamente, são os mesmos, exatamente os mesmos, onde aprendi a andar de bicicleta. Onde tantas vezes caí. Onde sapos, teimosamente imóveis no meio do carreiro, então ainda de terra batida, me obrigavam a travar e a inventar desvios. Onde acelerava para fugir aos sons brutais da matança do porco. Onde fazia corridas com os amigos, atravessando as hortas e saltando de tanque em tanque.

Ali, conheço tudo. Cada casa, cada courela, cada armazém, cada muro de pedra, cada curva. As árvores antigas.

A imagem do que foram estes campos nos anos 70 e 80 interpõe-se entre o meu olhar e o território. Na minha paisagem, permanecem ainda todas as pessoas que aqui viviam: a cavar, a regar, a sulfatar, vergadas a mondar e a sachar, a sair das estufas encharcadas em suor. Mulheres debruçadas sobre os tanques, a lavar roupa, ou junto às pilhetas, a esfregar tripas com sal e limão para fazer as chouriças. Homens a guiar charruas, apoiadas em ombros derreados, enquanto as mulas, exaustas, puxam.

Corpos em sacrifício. A carregar. Sempre a carregar: sacas de adubo e de ração, fardos de palha, baldes de comida para os animais. Batatas, cenouras, feijão-verde, pepinos, melões, melancias, abóboras.

À porta, as caixas de tomate que se «encabazava» ao cair da tarde, à espera dos camiões que as levariam para o mercado abastecedor.

A vida era dura. Mãos calejadas. Corpos gastos por um trabalho sem pausa, em dias que começavam antes do sol e só terminavam depois dele. Casas sem eletricidade, sem canalização. Roupa gasta, quase em farrapos.

Não há nostalgia que embeleze tamanha cruz. Não há encanto possível no cansaço nem na pobreza. Dignidade e miséria não são a mesma coisa.

Ainda assim, a inocência da idade guardou em mim uma reserva de felicidade que este pedalar vem agora desadormecer.

Da casa, onde só eu vejo o forno, chega-me o cheiro a pão com torresmos, acabado de fazer, e à panela de feijão com massa, ali deixada ao amanhecer, promessa de um almoço forte, retemperador.

Vejo os homens a regressar. Vão matar a sede ao cano da nora e inclinam a cabeça sob o jorro de água fresca para aliviar o ardor do sol no pescoço e nos ombros.

Ouço as mulheres e as crianças a disporem loiça e talheres sobre a mesa. Escuto a conversa.

Havia dureza. Mas havia vida.

As paredes são as mesmas por que passo agora, mas estavam caiadas, cuidadas. À porta, nos pátios, junto aos muros, havia vasos de flores. Havia sombras de árvores de fruto, de parreiras e de buganvílias pacientemente engaleiradas.

Havia famílias. E eram elas que enchiam o lugar de vida, de histórias e de memória.

Durante alguns anos, a Malvada esteve quase deserta. Agora voltou a encher-se. Mas não da mesma forma.

Os antigos agricultores foram substituídos por outros, igualmente pequenos para o peso que carregam. Peles queimadas por outros sóis chegam da Índia, do Nepal, do Paquistão. Gente igualmente exausta.

Mas que não veio para ficar. Veio para aguentar. Para sobreviver.

As casas estão cheias, mas não de famílias. As mulheres são raras. Não se avistam crianças, nem bicicletas, nem corridas, nem baloiços improvisados. Não há vozes.

É primavera, e os tanques estão vazios. Não apenas de água, mas de tudo o que lhes dava sentido.

Desapareceram as gargalhadas que acompanhavam as quedas na perseguição aos peixes, retirados um a um para se poder vazar o tanque e limpar o verdete dos limos acumulados.

Já não há a alegria de ver a água a subir de novo, nem os mergulhos que celebravam o fim de uma tarefa partilhada. Só memórias.

E não há cheiro. Nada cheira: nem a flores, nem a comida, nem a pão, nem a casa.

Essas paredes, embora habitadas, perderam o sopro que as animava. Já não guardam vidas; apenas abrigam presenças provisórias. São lugares de passagem, onde se pernoita sempre à espera do regresso.

Fantasmas. Vidas suspensas.

A terra voltou a ser trabalhada, sim, mas não voltou a ser vivida. Ali, já não se lançam raízes.

E, no meio disto tudo, detenho-me nos cães. Continuam presos, como sempre estiveram. Correntes curtas, estacas cravadas na terra. Dois passos em frente, dois para trás. A medida exata da sua vida.

Ladram à minha passagem, cansam-se, deitam-se. E esperam.

Como os homens.

Acorrentados à Malvada.

Sílvia Quinteiro é professora

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