A minha prima enviou-me um texto com a nota: “Boa matéria para uma crónica”. Concordei e pensei em escrever sobre a minha larga experiência no assunto. Antigamente, quando alguém tinha um problema, recorria a três entidades devidamente certificadas pela tradição: o padre, a vizinha e a bruxa. Era um sistema simples, funcional e, acima de tudo, honesto.

O padre tratava da parte espiritual com soluções universais. Independentemente do problema, desgosto amoroso, crise existencial, pé chato ou até queda de cabelo, a resposta era invariavelmente três atos de contrição e uma Ave-Maria. Uma consistência que hoje seria vista como falta de personalização, mas que revelava uma confiança inabalável no método.

A vizinha tratava do resto. Não tinha formação, nem informação, mas tinha opinião o que, como sabemos, continua a ser o mais importante. E fazia uma coisa hoje praticamente extinta: dizia diretamente o que pensava, sem recorrer a expressões como “num espaço seguro” ou “do ponto de vista do teu processo”.

A bruxa, por fim, oferecia aquilo a que hoje chamaríamos uma explicação alternativa. Tudo se resumia a meia dúzia de causas universais: inveja, quebranto ou mau olhado. Um modelo simples, mas surpreendentemente abrangente. Havia ali uma elegância quase científica.

Eu próprio fui cliente deste sistema que tinha uma característica notável: ninguém fingia que aquilo era ciência. Segundo a minha mãe, quando eu era pequeno sofria (alegadamente) muitas vezes de mau olhado, quebranto ou mal de inveja, ao ponto de desmaiar. A solução era ir à vizinha da frente na rua de Francisco L. Amado, bem perto do antigo mercado do peixe (hoje Alameda da República) em Portimão, que tratava do assunto com um pires, azeite e fé. Este era igualmente um ato de amor e de comunidade. Lembro-me da minha avó Carolina, anos mais tarde, a repetir o ritual. O pires branco, o azeite num copinho de café, a água límpida. O dedo mergulhava no azeite, o sinal da cruz desenhava-se no ar e as palavras saíam em murmúrio: “Deus te viu, Deus te criou, Deus te livre de quem para ti mal olhou”. Depois vinham as gotas. Se o azeite abria, estava confirmado: o mal tinha pegado. Se não, estava tudo em ordem. Diagnóstico claro, sem margem para interpretações criativas.

Nenhuma destas figuras falava em “processos”. Ninguém sugeria que estivéssemos “em construção”. Muito menos se insinuava que o problema pudesse ser uma falha na nossa capacidade de nos escutarmos a nós próprios. Se alguém, na altura, quisesse “encontrar o seu interior”, provavelmente era mandado cavar a terra não como metáfora, mas como atividade útil. E o curioso é que isto funcionava. Não porque resolvesse os problemas, raramente resolvia, mas porque oferecia clareza. Alguém dizia qualquer coisa com convicção, e isso bastava para seguir em frente, nem que fosse por teimosia.

Entretanto, evoluímos. Hoje, perante o mesmo desconforto existencial, evitamos o padre, dispensamos a vizinha e substituímos a bruxa por versões mais sofisticadas: coaching, tarot, astrologia. Mudou a linguagem, não o conteúdo. O que antes era inveja passou a ser Mercúrio retrógrado. Aquilo que antes era “alguém te quer mal” passou a ser “o universo está a testar-te”. O que era mau olhado tornou-se desalinhamento energético. E o clássico “aguenta-te” evoluiu para “abraça o teu processo”. No tarot baralham cartas até aparecer uma que explique a nossa vida. Se não explicar, baralha-se outra vez, o que é um método que, curiosamente, nunca foi adotado pela medicina, mas talvez devesse. Aliás, os estudos que foram feitos ao tarot mostraram que é tão eficaz a prever o futuro como a temperar saladas. A astrologia, que conseguiu o feito notável de pegar em doze signos e aplicá-los a oito mil milhões de pessoas com resultados suficientemente vagos para parecerem específicos, e tantas outras coisas onde pessoas desesperadas pela doença ou outros azares da vida gastam muito dinheiro mesmo, por vezes o que têm e o que não têm. O que era “tu és assim um bocado complicado” transformou-se em “tens bloqueios emocionais por resolver”. Também o pagamento evoluiu. Onde antes bastavam batatas ou um queijo, hoje exige-se transferência bancária e marcação prévia. Perdemos a informalidade, ganhámos profissionalismo.

E depois há os signos. Doze categorias para oito mil milhões de pessoas o que dá cerca de 630 milhões por signo. Quando alguém percebeu que isto não fazia grande sentido, inventaram-se ascendentes, luas e mapas astrais, uma espécie de camadas extra para justificar qualquer falha. Enquanto escrevo, consulto as previsões do meu signo, feitas por vários astrólogos para hoje. Todas diferentes. Surpreendidos? Eu também não. Se eu vos fizer a seguinte leitura astral, com mapas e tudo para parecer uma coisa à sério: És uma pessoa honesta e que preza a sinceridade. És amigo do teu amigo, mas se uma pessoa não for leal contigo nunca mais esqueces, embora possas perdoar. Por fora, usas uma capa de pessoa forte, mas, no fundo, és dotado de uma forte sensibilidade e tens momentos de grande insegurança e tendes a ser muito crítico em relação a ti mesmo. Em certos ambientes consegues ser extrovertido, mas precisas de te resguardar e carregar bateria estando algum tempo isolado.

Quantos se identificaram? É o chamado Barnum effect que faz com que nos identifiquemos com frases vagas e ambíguas que se aplicam a quase toda a gente. Nenhuma leitura astral dá o seguinte resultado: “És uma merda de pessoa. Não sabes fazer rotundas, ouves música da treta. Marte está na terceira casa e tu devias ir para dar uma volta ao bilhar grande. Obrigado e volte sempre”.

Andam os cientistas a tentar perceber se a nossa personalidade é mais influenciada pela genética ou pela educação e envolvente cultural, quando esta gente doutorada em Hogwarts e com mestrado da Disney já resolveu o mistério e, afinal, é tudo culpa das estrelas e dos planetas. Alguns de vós devem estar a pensar que sou arrogante e que devia ter a mente mais aberta, mas não me interpretem mal: conheço exceções. Pessoas sensatas, até úteis. Mas coexistem com uma quantidade apreciável de indivíduos que, com grande confiança, nos devolvem aquilo que já sabíamos apresentado como descoberta… a troco de muitos euros.

Conheço pessoas inteligentes que acreditam no tarot, tal como acreditam nos signos. Todos nós temos áreas da nossa vida em que deixamos a inteligência em casa. Faz parte. Todos os anos acredito que o Benfica vai ser campeão. São crenças infundadas que todos temos. Acho que o futuro pode ser previsto nas cartas da mesma forma que se pode prevê-lo nas borras do café, nos intestinos de uma cabra ou num teste de Rorschach feito num papel higiénico usado depois de uma feijoada.

Antigamente, ninguém fingia que aquilo era ciência. Hoje, sabe-se exatamente o suficiente para parecer que se sabe muito. No fundo, nada mudou. Continuamos à procura de respostas. Só mudou o embrulho. Antes chamava-se superstição. Hoje chama-se desenvolvimento pessoal. E, no entanto, permanece uma suspeita desconfortável: em muitos casos, a vizinha teria resolvido o assunto mais depressa. Não melhor, mas mais depressa. E, sobretudo, sem necessidade de agendamento. O que, convenhamos, continua a ter o seu valor.

PS: Para efeitos legais, o autor não se revê neste texto, que foi claramente escrito sob influência do Arcanjo Vítor d’Estômbar.

Júlio Ferreira é um inconformado encartado

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