Há cerca de um ano, numa conversa com uma turma sobre hábitos de leitura, disseram-me, com a maior naturalidade, que nunca tinham lido um livro até ao fim. Insisti. Quis perceber porquê e o que os impedia sequer de tentar, de onde vinha aquela certeza de que não iam gostar de ler. Um deles respondeu, seguro:
- Nem os professores gostam, quanto mais nós.
Discordei, naturalmente. Invoquei os meus melhores argumentos, até ser desarmada no momento em que o mesmo rapaz afirmou que a professora do 11.º ano lhes recomendara não ler Os Maias. Uma seca. Muita descrição. Nem ela tinha lido e, como se via, não lhe tinha feito falta nenhuma.
Seria precisa bastante desatenção, senão mesmo desonestidade, para não reconhecer que, há muito, a leitura integral das obras se fez exceção. A quem insiste em dizer “no meu tempo não era assim”, respondo: - Era, pois. Claro que era.
A diferença é que havia pudor. Os resumos usavam-se com cautela, disfarçados de apoio, de orientação. Jamais se admitia serem uma forma de contornar longas horas de entrega às metáforas, anáforas e demais engenhos de Camões, Eça, Camilo, Agustina, Garrett ou Herculano. Um pequeno delito que se cometia a medo, com a plena consciência do risco.
Hoje, o receio desapareceu. O aluno já não finge. Não lê, e nem precisa de fingir que o faz. Sabe que, do outro lado, também já pouco há quem o tenha feito.
Animou-me, por isso, há dias, saber que o Ministério da Educação propunha exigir níveis mínimos de literacia, numeracia e inglês para acesso ao ensino superior. Mínimos. A palavra é pouco entusiasmante, é certo, mas ainda assim deixa entrever um princípio de exigência e uma tentativa de restituição de algum rigor.
Acreditei na bondade da medida. Confesso que acreditei. Mas foi sol de pouca dura.
Pensando bem, pergunto-me o que me levou a ter tamanha ingenuidade. Sim, porque, na mesma semana, começaram a circular informações sobre os detalhes. E é nos detalhes que está o diabo, como é sabido. Com cornos, cheiro a enxofre e tudo a que tem direito.
Ora, acontece que os ditos mínimos se irão atingir por via de alterações nos conteúdos. Até aqui, seria uma refrescante alternativa à obsessão pelos exames. Porém, o país parou, estupefacto, ao ser anunciado que a primeira medida no sentido da elevação cultural dos aspirantes a universitários consiste em retirar a obra de Saramago do rol das leituras obrigatórias. “Complexo”, esclarecem. “Polémico”, Deus nos livre. “Muito difícil”, o horror. Dificuldade é agora defeito. Pensar e estudar, tortura. Impensável cansar assim as cabecinhas dos nossos jovens. Coitadinhos. Tão limitados, tão incapazes de compreender, tão frágeis, as pobres vítimas.
Ou então, e talvez custe um pouco mais a admitir, o problema não está neles. Talvez, se perguntássemos nos corredores do Ministério quem leu a obra do nosso único Prémio Nobel da Literatura, ninguém levantasse o braço. Para quê ler? Bem, eu diria que, se tivesse servido para evitar termos a “Tilda Swinton na protagonista”, já teria valido a pena. Mas posso estar a ser demasiado exigente com quem redigiu a proposta. Afinal, estamos em tempo de mínimos.
Li que se propõe escolher entre Saramago e Mário de Carvalho. E li também a reação deste último, satisfeito pelo reconhecimento. No lugar dele, não sei se estaria. Se se abdica de Saramago por ser denso e desafiante, estaremos a sugerir que Mário de Carvalho é levezinho? Uma leitura para não cansar alunos e professores? Porque, se assim for, talvez fosse prudente esquecer os resumos e ir ler a obra, para não haver surpresas.
Já aos que celebram em alarido a expulsão tardia da temida ideologia do Nobel dos programas, resta-me apenas dizer que Era bom que trocássemos algumas ideias sobre o assunto.
Na verdade, a única explicação plausível e aceitável para esta tomada de decisão parece-me advir não de um conhecimento profundo da obra de Saramago, mas da leitura transversal de um post que corre pelas redes sociais por estes dias e que faz uma revelação inquietante: colocado um excerto seu num programa de deteção de inteligência artificial, concluiu-se que 73 % do texto teria sido produzido por uma máquina.
Ora aí está. O grande impostor. Caiu-lhe a máscara. O malandro andou a enganar-nos. Um visionário, sem dúvida, mas não da literatura: do uso desavergonhado, avant la lettre, da inteligência artificial.
A minha breve ilusão com a imposição dos tais mínimos lembra-me agora uma velha anedota:
Quatro bêbedos discutiam o que fariam se mandassem no país.
O primeiro disse que reforçaria a fiscalização:
— Há demasiada desordem, é preciso pôr regras nesta terra.
O segundo propunha baixar alguns impostos:
— Para ver se se conseguia desapertar um bocadinho o cinto.
O terceiro, já mais animado, levantou-se e proclamou:
— Se eu fosse primeiro-ministro, o vinho era grátis para toda a gente — E, no mesmo instante, tão seguro da ideia quanto inseguro das pernas, perdeu o equilíbrio e estatelou-se no chão.
O quarto olhou para ele e lamentou:
— Logo agora que o governo que me interessava é que caiu…
É assim que me sinto hoje. Num instante, a promessa; no outro, a queda.
Só não sei o que é pior: o trambolhão… ou os trambolhos.
Sílvia Quinteiro é professora
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