Há mais de quarenta anos que oiço e apercebo-me das queixas dos agentes culturais algarvios, que tomo também como minhas, relativamente ao enorme peso da capital do país na vida artística e cultural do Algarve. É um facto, no contexto artístico, verifica-se que os programadores culturais, ao privilegiarem obras, eventos ou criadores oriundos de Lisboa ou do Porto, frequentemente optam por colocar artistas regionais a colaborar com nomes já reconhecidos a nível nacional como forma de lhes atribuir visibilidade. Contudo, esta estratégia pode perpetuar a centralização cultural e a lógica do provérbio “O que vem de fora é que é bom!”, ao sugerir que o mérito dos artistas regionais depende da associação a figuras consagradas, quando, na verdade, a produção local possui valor e qualidade que justificariam destaque próprio e independente. Tal preferência contribui para que as manifestações artísticas regionais sejam subestimadas ou ignoradas, reforçando a ideia de que o reconhecimento está condicionado pela origem geográfica ou pela notoriedade dos colaboradores, em vez de ser fundamentado no mérito individual das obras e dos seus criadores.
Acresce ainda que, muitas vezes, as próprias entidades culturais da província acabam por interiorizar um certo complexo de menorização cultural. Este fenómeno manifesta-se na tendência para considerarem as suas produções e iniciativas como inferiores ou menos relevantes em comparação com as provenientes dos grandes centros urbanos. Tal postura pode traduzir-se numa autolimitação das propostas artísticas, numa busca constante de validação externa e numa hesitação em afirmar a identidade e o potencial criativo local. Esta autoperceção de inferioridade não só fragiliza a autoestima dos agentes culturais regionais, como também dificulta a construção de propostas e produções alternativas e inovadoras que valorizem a singularidade das manifestações artísticas locais.
Outro fenómeno que impede a justa promoção e consagração dos agentes artísticos e culturais de uma região é o “amiguismo” nas programações culturais, constituindo tal forma de atuar um desafio significativo para a construção de um ambiente artístico plural e meritocrático. Esta prática, muitas vezes camuflada sob o pretexto de parcerias estratégicas, programação em rede ou afinidades culturais, traduz-se na seleção preferencial de projetos e artistas com vínculos pessoais aos programadores culturais e decisores de fundos públicos. O resultado é uma distorção dos critérios de avaliação, onde o mérito, a originalidade e o potencial inovador das propostas passam para segundo plano, em benefício de relações de proximidade. Para superar este ciclo, é indispensável que os processos de programação e financiamento cultural sejam transparentes, baseados em critérios de qualidade e relevância, e abertos à pluralidade de vozes e tradições. Só assim será possível romper com a lógica do favoritismo e promover uma verdadeira valorização do mérito e da riqueza criativa das regiões.
Num contexto em que a centralização cultural privilegia os grandes centros urbanos, muitos artistas regionais sentem a necessidade de sair das suas terras para serem reconhecidos e legitimados. Esta migração, frequentemente vista como um passo inevitável para alcançar visibilidade e aceitação, revela um sistema cultural que faz depender o sucesso da proximidade das redes estabelecidas e do acesso aos circuitos de programação dominados por Lisboa e Porto. Tal dinâmica não só fragiliza as raízes locais, como também perpetua a ideia de que o valor artístico depende da validação externa, em vez de se afirmar pela autenticidade e mérito das produções regionais.
Ao privilegiar as raízes, as tradições e as expressões autênticas de cada território, cria-se uma plataforma sólida para que as manifestações culturais regionais possam obter reconhecimento fora das suas fronteiras, contribuindo para a projeção de uma imagem singular e diferenciadora. O exemplo da música alentejana, nomeadamente o Cante Alentejano, ilustra bem este potencial. A valorização, preservação e divulgação desta expressão musical não só reforçaram o orgulho e a coesão das comunidades locais, como também despertaram o interesse de um público vasto e variado.
Para além de reconhecer o mérito individual dos artistas, é fundamental utilizar a cultura de uma região como critério valorativo e identitário. Ao valorizar as especificidades culturais locais, não só se legitima a produção artística regional, como também se reforça a identidade coletiva e o sentimento de pertença das comunidades. Este caminho, para além de combater a centralização e a homogeneização cultural, contribui também para a diversidade e riqueza do panorama artístico nacional e internacional. Aqui, a sul, espero que haja quem tenha o saber, a criatividade, a independência e a coragem para o desbravar, pois eu e muitos mais algarvios gostaríamos de o trilhar!
Paulo Cunha é professor
Crónica publicada em:
Foto: Daniel Santos
