Pensei o quanto desconfortável é ser trancado do lado de fora; e pensei o quanto é pior, talvez, ser trancado no lado de dentro.
Virginia Woolf
Virgínia Woolf, num conjunto de ensaios a que chamou A Room of One's Own, fala sobre a relação entre as mulheres e a escrita de ficção. Para ela, uma mulher só poderia escrever ficção se tivesse “um quarto todo seu”. O quarto é o espaço do recolhimento, da intimidade. É a parte da casa que nos acolhe na nossa plenitude, com nossas lágrimas, risos e com nosso desespero. É o espaço da partilha connosco mesmos, o lugar onde deixamos as máscaras e assumimos finalmente o papel de sermos quem somos. É o lugar de pertença e de pertencimento, é o meu (nosso) lugar. É também o lugar da escrita, longe dos olhos alheios, é um lugar de efabulação. Alexandre Martins, ao ser convidado a desenvolver um trabalho para o Project Room, espaço consagrado à experimentação pela Associação 289, decidiu assumir o quarto como um lugar de pertencimento, de memórias, mas também de partilhas. Um quarto para o qual ele convidou, ou convocou, os meus textos - memórias, imagens de infância, pensamentos íntimos, que ele usa como base para suas criações. Para mim foi um prazer colaborar com o artista, deixando que ele revisitasse meus textos, alguns já esquecidos, que ganham nova vida através das suas criações. Os textos, e imagens, são a matéria da qual ele dispõe para criar dispositivos digitais. A sua arte parte da materialidade das palavras que se convertem em desenhos, em espaços, num emaranhado de sentidos, nunca óbvios, que redimensionam o que estava escrito. Dão densidade às letras, novos sentidos às palavras que, entrelaçadas às imagens, confundem-se com elas – nunca se sabe onde a imagem é rasto do real onde ela é um conjunto intricado de sentidos. O quarto é o lugar da memória, da escrita, o lugar do eu. O artista confunde as suas próprias memórias com as minhas. Usa suas imagens de infância, minhas imagens, textos de vidas que vivi e outros que poderiam ter sido vividos por ele, numa tessitura densa, quase indiscernível – não se sabe onde começa o eu e onde acaba o outro. O projeto é usar o quarto como lugar da experiência, desvendando o que, normalmente, não sai das quatro paredes, não habita o restante da casa. Além dos meus textos, Alexandre Martins pediu-me os objetos de gaveta, aqueles de que nos esquecemos.
“(…) estava a desembrulhar uma camisa e, de repente, dei por mim a pensar na minha infância. Estranha associação, pode parecer à partida. Mas a verdade é que adorava ir, depois das aulas, à loja de pronto-a-vestir do pai da minha melhor amiga. Ver as camisas nas caixas, algumas com tampa transparente, depois os alfinetes e a maneira como elas eram dobradas, arrumadas. Gostava de levar para casa os alfinetes, os papelões que protegiam o colarinho e os punhos. Minha mãe me perguntava para que é que eu queria aquelas coisas inúteis. Para nada, claro. Gostava de tê-las comigo um bocado, como outras pequenas coisas que gostava de ver e que também, cumprida a sua função, não serviam para nada. Como o papel roxo que cobria as maçãs, que vinham em caixas de madeira. Gosto de coisas que ficam bem a embrulhar outras coisas, pacotes, laços, papéis... Pequenos objetos cuja utilidade se finda quando abrimos o pacote. Eu muitas vezes queria que eles perdurassem, um bocadinho mais que fosse. o tempo da minha mãe dizer: está na hora de deitá-los ao lixo”.
O projeto é, sobretudo, de partilha. Cada obra exige, do público, a capacidade de desvelamento, instiga a curiosidade sobre a emergência das memórias e da sua materialização no universo da arte digital.
Mirian Tavares é professora
Crónica publicada em:
Foto: Isa Mestre
