O MUDE – Museu do Design anunciou a integração da obra «Matriz» (2025), de Vanessa Barragão, na sua coleção permanente. A peça, uma tapeçaria de escala monumental, foi doada pela artista algarvia ao Município de Lisboa e está em destaque no centro da exposição de longa duração do museu até dia 26 de junho.

A doação de «Matriz» assinala um momento de particular relevância para o património municipal, ao garantir a salvaguarda de uma obra que sintetiza o diálogo entre o design contemporâneo e o saber-fazer artesanal. Com dimensões de 2,80 × 3,50 metros, a peça interpela os sentidos através das suas formas orgânicas e materialidade, reforçando o compromisso de Barragão com a sustentabilidade e a preservação dos ecossistemas.

Natural de Albufeira (1992), Vanessa Barragão é reconhecida internacionalmente pelas suas tapeçarias murais que alertam para a crise climática. O seu trabalho — que inclui a célebre instalação «Botanical» no Aeroporto de Heathrow — utiliza a reinterpretação de organismos vivos para criar paisagens imaginárias. Em «Matriz», o contraste entre o vigor dos corais vivos e as composições em brancos e cinzentos serve como um aviso visual sobre a morte dos oceanos e a perda de biodiversidade.

A prática de Barragão afirma-se como um manifesto vivo contra a lógica da fast-fashion. Através de um método de produção de «Resíduo Zero», a artista resgata exclusivamente desperdícios da indústria têxtil — como lã, juta e tencel — preservando as suas tonalidades originais para evitar processos de tingimento químico. Este compromisso ético materializa-se através da recuperação de técnicas ancestrais, como o ponto esmirna, a feltragem e o croché, num processo de manufatura lenta.

No atelier, a criação assume uma dimensão social e colaborativa: uma transferência de conhecimento intergeracional que envolve a família da artista e colaboradores de diversas nacionalidades, elevando o saber-fazer tradicional a uma ferramenta estratégica de inovação sustentável. A obra de Vanessa Barragão afirma-se, assim, como uma herdeira conceptual da experimentação da Bauhaus e da arte têxtil como expressão feminista, posicionando a tapeçaria como uma arte autónoma e um fator estratégico de desenvolvimento sustentável.