Acontece-me, de vez em quando, ao ler um livro, perguntar-me porque não o tinha feito antes. Instala-se em mim a sensação de que andei a perder alguma coisa que estava ali à mão e que já há muito podia trazer comigo. Foi exatamente esse sentimento que me invadiu por estes dias, ao ler O Mel e as Vespas, de Fernando Évora.

Demorei a chegar-lhe. Não por falta de conhecimento da sua existência, nem de vontade, ou de curiosidade, mas porque há sempre urgências nos dias normais. E vou adiando. Coloco em cima da mesa. Garanto a mim mesma que é o próximo. Este e todos os outros que se vão acumulando numa pilha de intenções “para quando estiver menos ocupada”.

No caso de O Mel e as Vespas, pesou, além do mais, o facto de não ser um romance que se lê rapidamente. Exige tempo e concentração. Implica parar, voltar atrás e garantir que não nos perdemos por entre os galhos de uma complexa árvore genealógica.

Impressionou-me a fascinante arquitetura do romance, desenhada sobre um equilíbrio raro entre investigação e escrita. As múltiplas referências históricas não deixam margem para dúvidas quanto à pesquisa efetuada. A elegância da escrita, porém, tem o condão de as integrar de forma quase impercetível na diegese, transportando o leitor para um universo povoado por personagens e episódios inesquecíveis.

E depois há aquilo que só tem explicação no encontro de cada leitor com o texto.

Tudo neste livro faz eco dentro de mim. A serra. As ruas. Os edifícios. Os modos de vida. A guerra. A emigração. A deslocação para a cidade. As marés. As vozes. As pequenas obsessões. As figuras que atravessam as páginas e me são estranhamente familiares. Bastaria trocar-lhes os nomes e deixariam de ser invenções do autor. Seriam reencarnações de gente que em algum momento, num verão distante, numa ida ao cemitério ou ao mercado municipal, numa festa da aldeia ou ao caminhar por uma rua da minha cidade, passou pela minha vida.

Avanço na leitura sempre na esperança de que não me desiluda e chego à última página com um misto de satisfação e saudade. É um texto belíssimo.

Durante anos repeti, com profunda convicção, que o Algarve precisava de um grande romance. Que ainda não o tinha. Que lhe faltava essa obra maior, capaz de o dizer por dentro. O meu erro, agora tão óbvio, recorda-me uma frase muitas vezes dita por uma sábia amiga: “A ignorância é muito atrevida”.

Sílvia Quinteiro é professora

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