Uma borboleta bate as asas (no médio-oriente) e… provoca uma gripe (económica) em Portugal.

Tal e qual como o ministro das Finanças já fez antever “…teremos um choque económico muito significativo e teremos de, naturalmente, procurar responder a esse choque, porque temos uma economia onde o turismo é uma indústria muito importante, quer na receita, quer no emprego” (05/05/2026) … e então quais as medidas que antecipa?

- “…Portugal vai avançar com taxas sobre os lucros extraordinários de empresas energéticas, à semelhança do que aconteceu em 2022, na anterior crise dos preços dos combustíveis após a invasão da Ucrânia pela Rússia” (10 de maio, ministro das Finanças em Bruxelas).

Pois, é uma medida popularmente bem aceite, mas eu era capaz de pensar em comunicar uma medida, também do governo daquela época, de suporte imediato à economia e ao emprego, ao invés de fechar o assunto com a maior arrecadação de receitas.

Aliás, louvo-me das afirmações do antigo ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, que já veio defender “que o governo redistribua o aumento das receitas fiscais extraordinárias (EDP e Galp e, acrescentaria eu, Banca) para os rendimentos das famílias e das empresas aos trabalhadores, turismo e/ou a redução dos impostos dos combustíveis aos consumidores”.

Ou seja, ressocializar de forma extraordinária, receitas extraordinárias comunicantes de forma direta. Será o mínimo que as PMEs, consumidores esperariam ouvir.

Mas, insisto, como referiu o ministro das Finanças: - “teremos que responder a esse choque” … Mais impostos sobre quem tem rendimentos extraordinários por causa da crise e ressocializar, em conexão, essas receitas aos consumidores, seria mais justo e útil. Mas diria que é continuar a esperar receitas de crise e redistribuir depois, por causa da crise.

Face à indecisão dos mercados da procura turística, ao impacto dos preços em maio e, portanto, do funcionamento da nossa economia, precisaríamos já de outro caminho – o da motivação dos mercados, por um lado e, por outro, dos agentes do lado da oferta, antes que a crise se acentue e percamos a época alta, que depois não há como equilibrar quando, no outono, os efeitos da guerra se podem já ter atenuado.

Não vejo apregoar-se a marca Portugal «como refúgio seguro», para atenuar as notícias que, ao invés de Espanha, estamos de um lado dos beligerantes. Não vislumbro afirmação no mercado interior alargado (Portugal/Espanha), para mobilizar viagens alternativas à dependência do transporte aéreo que vai encarecendo. Não antecipo notícias de redução das tarifas aeroportuárias, que afinal estão a fazer com que destinos nacionais percam ligações.

Não ouço notícias de Portugal na captação de investimento estratégico e players internacionais para formar imagem positiva… sei lá, ao menos, repitam os anúncios.

Ouço falar, sim, que estamos atrasados no PRR e que lançámos um PTRR com milhões daqui e dali, mas, mobilização para a economia, um rumo proativo…não vislumbro, sequer para o sector que mais impacta em Portugal que já está a sofrer consequências imediatas e que vão perdurar.

«Não é preciso inventar a roda». Isto já foi feito antes recentemente, seja devido à invasão da Ucrânia (2022), seja pela pandemia (2020).

Basta ajustar criticamente e relançar de forma melhorada. Mas é preciso fazer já. Não me parece que esperar efeitos das conversas na China seja remédio para dar a volta ao continuar de um clima imprevisível, de incerteza, a adensar-se e que está a impactar na decisão de despesa dos nossos milhões de visitantes de várias origens.

Aliás, basta ver os que os operadores portugueses estão a fazer para tentar sustentar a decisão de despesa das viagens a partir de Portugal para destinos internacionais.

Talvez fosse de fazer, quem deve, para atrair, todos, mas para Portugal. Mas um esforço conjunto com quem está no terreno, do lado do produto, da oferta, do atendimento que nos distingue.

Não conseguimos decidir sobre o(s) bloqueio(s), Afonso de Albuquerque não reincarna em Trump, mas podemos assumir uma ação que contrarie uma postura anímica. A inflação cresce e a receita decresce, não nos vamos deixar ficar.

Novos eventos, surpreender, novas ofertas, novos apoios que nos façam unir neste desígnio que é salvar a economia das nossas pessoas.

Afirmar Portugal! Ganharemos sempre e em qualquer cenário.

Paulo Neves é um «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha

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