Dis donc camarade Soleil
tu ne trouves pas
que c'est plutôt con
de donner une journée pareille
à un patron?
Jacques Prévert

O sol, na poesia de Jacques Prévert, não é um astro, uma fonte de luz, um tema ou um símbolo de grandiosidade. O poeta que vagueou entre o surrealismo e o realismo social, fala do sol como um sinal de dureza, do calor que queima, mas não aquece, do desconforto da luz excessiva, dos que sofrem por trabalhar de sol a sol. Há, no entanto, textos em que o sol se torna um lugar:

(...) une nuit j'ai lu un livre, était-ce pendant un rêve?

Des êtres radieux et gais vivaient dans le soleil, sur le soleil, au cœur du soleil, en plein soleil.


O sol, para Bruno Grilo, não é um astro, uma fonte de luz ou símbolo da magnificência. Nas suas obras, quase sempre cheias de luz, o sol é símbolo de um incómodo que o atravessa. O Algarve, considerado terra do mar e do sol, abriga desequilíbrios, normaliza relações desiguais numa aparente felicidade plena de um verão que se eterniza e que deixa marcas nos corpos, nos lugares, no espaço em que ele habita. Ao chamar a exposição de Democrático Sol, o artista confronta sentidos e desestabiliza lugares-comuns. O sol nasce para todos, mas em que medida?

A exposição funciona como uma grande instalação que nos convida a mergulhar num espaço coberto, literalmente, de sol. Cada sol que paira sobre nós traz uma “cara” feliz que oculta a outra face – de um lado o prazer absoluto, do outro, a realidade de um território expropriado à sua gente, um território à venda, um lugar de passeio. Paisagens recortadas e estilizadas pontuam o espaço criando contrastes cromáticos com o amarelo que predomina e que também ilumina, mesmo que artificialmente, a galeria.

A face do sol, entre sorridente e irónica, é uma clara referência à pintura de Albuquerque Mendes: sobrancelhas finas, olhar espantado, boca em riste. Entre o espanto e uma possível risada, o rosto congela numa expressão que se repete com pequenas variações. O artista não nega que sua obra é inspirada nos grandes artistas portugueses dos anos 60 e 70, sem descurar influências mais contemporâneas, como a cor desmesuradamente vibrante que emerge da arte de Xana. Nas paisagens, encontramos Álvaro Lapa e suas pinturas planas, coloridas em que a imagem se insinua entre linhas, mas nunca aparece plena.

Democrático Sol é, uma vez mais, um gesto crítico e criativo que discute um território específico, o Algarve, mas que pode ser expandido para outros territórios que se transformaram num destino turístico que contrariam a ideia de que o sol é para todos. O sol é, sem dúvida, para todos. Mas não na mesma medida e nunca com a mesma função.

A exposição vai estar patente, na Galeria Trem, de 14 de maio a 18 de julho

Mirian Tavares é professora

Crónica publicada em:

Foto: Isa Mestre