meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
Adélia Prado
Outro dia saí da universidade, já passava das 20h, e automaticamente fui em direção ao portão que fecha a essa hora; nem me tinha dado conta. Já ia recuar quando vi o segurança, a sorrir e a segurar o portão para que eu pudesse passar. Agradeci-lhe e fiquei contente com algo que parece banal. Os pequenos gestos dizem mais de nós mesmos do que os gestos grandiosos, retumbantes: o grande sacrifício, a grande providência. Esses gestos são bonitos, muitas vezes fruto de um momento dramático, de algo que antecede ou precede um grande drama. Heroicos. Não lhes retiro a importância, mas eles são a exceção na regra da vida. E é nessa vida quotidiana, muitas vezes cinzenta, amarga e complicada, que os pequenos gestos se tornam grandiosos: alguém que sorri de volta quando cumprimentamos; um elogio sincero que demonstra carinho. Valorizo cada gesto de cuidado, como cozinhar para mim, perceber que tenho os olhos tristes e inventar coisas para me animar, sair da rotina para dar um passeio só porque sente que preciso. Hoje, um cão muito fofo, com uma bola amarela na boca, virou-se e decidiu meter-se entre as minhas pernas e pedir festinhas. A dona, muito atrapalhada, chamava o cão, que não queria ir embora. Os animais também são capazes de pequenos gestos, de gestos doces, carinhosos. Mesmo os gatos, que têm má fama, às vezes, quando lhes dá na telha, são fofinhos e queridos. Fico contente quando um motorista para o carro para que eu saia do parque, quando sou recebida de forma calorosa por pessoas que mal conheço, quando o ou a empregada de mesa sorriem e esperam, sem pressa, que eu faça as minhas escolhas. Havia um empregado de mesa de uma pizzaria, ao pé da universidade, que elogiava sempre a minha roupa; outro dizia que passava muitas vezes pela mesa para ver o meu sorriso. Depois de um dia difícil, de enfrentarmos os nossos demónios quotidianos, sabe bem alguém segurar o portão e esperar por nós, sem pressa, com um grande sorriso e um gesto de adeus.
Mirian Tavares é professora
Crónica publicada em:
Foto: Isa Mestre
