Quem é que já não ouviu as, já banalizadas, frases “Ela pôs-se a jeito. Estava mesmo a pedi-las” quando comentamos a violação duma mulher? Infelizmente, continua a ser um exemplo clássico de culpabilização da vítima - uma lógica perigosa que tenta transformar a responsabilidade de uma agressão em algo que a própria vítima terá provocado pela forma como se vestia ou se apresentava.

Não, ninguém “se põe a jeito” para ser agredido. Quando alguém sugere que a vítima “provocou” a agressão, a violência deixa de corresponder a um crime e passa a indiciar uma “consequência natural”. Isto reduz a indignação social e torna mais difícil denunciar ou punir os agressores. A sociedade passa a ver as agressões como mal-entendidos e não como atos de violência.

O impacto social deste tipo de linguagem é profundo, estrutural e cumulativo. Não é apenas uma maneira de falar, é um mecanismo que molda comportamentos, legitima desigualdades e perpetua a violência. Continua a assistir-se a um aumento dos estereótipos de género, à culpabilização da vítima, à desresponsabilização do agressor, à transmissão intergeracional do machismo e à erosão da empatia. Ora, consequentemente, estes comportamentos terão impacto nas instituições (Justiça, Ensino, Saúde, etc.).

A linguagem não descreve apenas a realidade – cria-a. Explicar o perigo destas frases “Ela pôs-se a jeito!”, “Estava a pedi-las!” funciona melhor quando colocamos a nu as suas reais e definitivas consequências. As pessoas raramente mudam de opinião com moralismos, mudam quando percebem os resultados de determinados comportamentos nas vidas de quem está próximo e lhes é querido.

Vários estudos recentes mostram um aumento de atitudes machistas entre rapazes, sobretudo influenciados por determinadas figuras públicas e por comunidades digitais que normalizam os discursos de ódio contra as mulheres. Mas, ao mesmo tempo, há também mais jovens com consciência feminista, mais informados, mais críticos e mais intolerantes à desigualdade. Ou seja: a polarização está a aumentar.

O que está então a alimentar os comportamentos machistas entre alguns jovens? Os influenciadores misóginos, os algoritmos que amplificam a radicalização, a progressiva insegurança económica e social, a falta de educação sexual e emocional e a reação ao avanço dos direitos das mulheres poderão ser alguns dos fatores que servem de resposta a essa relevante questão.

Estudos europeus realizados entre 2023 e 2025 indicam que os rapazes entre os 15 e os 24 anos são o grupo que mais cresce em adesão a discursos antifeministas. Em Portugal, inquéritos escolares mostram que o sexismo benevolente e hostil está a reaparecer, sobretudo entre rapazes, mas também mostram que as raparigas estão mais conscientes, mais críticas e mais intolerantes a comportamentos machistas. Portanto, não é uma tendência uniforme - é uma divisão geracional dentro da própria geração.

A verdade é que a geração Z e a geração Alpha são as mais conscientes de sempre, mas também as mais expostas à radicalização online. Não estamos a assistir a um “regresso ao passado”, mas sim a uma batalha cultural dentro da juventude: de um lado, jovens que querem igualdade, respeito e relações saudáveis, do outro, jovens que se sentem ameaçados por essas mudanças e procuram refúgio em discursos machistas. É um conflito entre modelos de masculinidade, não entre “jovens” e “não jovens”.

A forma mais eficaz de combater o machismo é criar condições para que os jovens desenvolvam pensamento crítico, empatia e modelos de masculinidade saudáveis. Na qualidade de docente e educador, saliento a importância da educação emocional e relacional, fomentando e trabalhando a empatia e a gestão de conflitos.

Tentemos, pais e professores, fazer a nossa parte. Como? Criando diálogos sem julgamento, ensinando literacia digital, oferecendo modelos masculinos saudáveis, trabalhando a autoestima e a pertença, desmontando argumentos misóginos com factos e, sem humilhar nem ridicularizar, construir espaços e momentos de reflexão e conexão. Bem precisamos!

Paulo Cunha é professor

Crónica publicada em:

Foto: Daniel Santos