A câmara mergulha nas águas escuras do Arade. Primeiro, apenas o silêncio do lodo. Depois, a história começa a ganhar forma: a curva delicada de uma ânfora, a sombra de um casco, o ferro corroído de um canhão que repousa há séculos no fundo do rio. Fragmentos de comércio, de viagens e de batalhas, pedaços de mundos que o tempo escondeu e que os arqueólogos foram revelando, um a um, até reunir mais de três mil achados. Alguns já brilham no Museu de Portimão, como os canhões da Ponta do Altar, mas a maior parte continua invisível ao público.

Agora, esse património submerso vai emergir. Com um investimento de 3,4 milhões de euros do Algarve 2030, nasce o MUSA – Musealização dos Achados Arqueológicos do Fundo do Arade, um projeto liderado pelo Município de Portimão, mas tecido em rede com a Autarquia de Lagoa, o Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS) e a CCDR Algarve. Estão previstas novas campanhas arqueológicas, inspeções ao leito do rio e o restauro de peças já recolhidas, a par do que ainda se possa descobrir.

O Laboratório de Conservação e Restauro de Portimão vai ganhar capacidade para tratar um maior volume de achados — não apenas do Arade, mas também de outros pontos do Algarve. O Núcleo de Arqueologia Subaquática do município será ampliado para acolher coleções atualmente guardadas em Lisboa, devolvendo-as à região. 

Do outro lado do rio, em Lagoa, nascerá também um núcleo museológico dedicado ao espólio do Arade. E para os mais ousados haverá um convite inédito: uma reserva subaquática visitável.
O projeto MUSA inclui plataformas digitais, uma monografia arqueológica e um estudo arquivístico sobre o Arade.

Foto: João Rodrigues