A Câmara Municipal de Loulé promoveu uma sessão pública de esclarecimento, conduzida pelos arqueólogos municipais Alexandra Pires e Rui Almeida, dedicada aos trabalhos arqueológicos integrados nas obras de reabilitação dos arruamentos (Fase 2) do Centro Histórico de Loulé. A iniciativa visou aproximar os munícipes da realidade científica do subsolo, conciliando o impacto inevitável das intervenções na vida quotidiana com a proteção do património e o conhecimento da evolução da cidade aos longo dos diferentes períodos de tempo.
Nos últimos anos, as ruas do Centro Histórico de Loulé têm sofrido obras, com os inevitáveis constrangimentos. Pó e barulho à porta das casas ou dos estabelecimentos comerciais, ruas cortadas ao acesso pedonal – nem sempre são bem compreendidos pela população, mesmo quando o fim é a melhoria da qualidade do espaço público. Muitas vezes é imputada aos trabalhos arqueológicos a culpa dos atrasos das empreitadas. Mas em Loulé, graças à equipa da Arqueologia do Município, foi possível “devolver a qualidade de vida a estas pessoas de forma mais rápida”, como sublinhou a diretora municipal, Dália Paulo. “A Arqueologia, por vezes, não só atrasa obras, mas também resolve situações. Os nossos arqueólogos fizeram com que a obra tivesse menos impacto para os moradores. Se não fosse a sua dedicação provavelmente teríamos mais 6 meses de obra”, notou.
Em nome de uma equipa que integra mais três elementos – Daniela Grelha, Margarida Marques e Soraia Martins –, Alexandra Pires e Rui Almeida apresentaram os resultados das escavações, revelando, entre outros, achados inéditos do período romano e enterramentos no Largo da Matriz. O encontro serviu não só para partilhar as descobertas, mas também explicar o enquadramento legal que protege este território. O Centro Histórico está integrado numa Zona Especial de Proteção (ZEP) aos Monumentos Classificados, ferramenta legal que funciona como “uma célula autónoma no urbanismo de Loulé”. “Obriga a pareceres da tutela do património e determina a obrigatoriedade de acompanhamento arqueológico em todas as obras públicas ou privadas, garantindo cuidados redobrados não só com os elementos arquitetónicos, mas também com o património do subsolo”, explicou Alexandra Pires.
Relativamente às descobertas da Fase 1 (realizada entre 2013 e 2014), a intervenção focou-se na envolvente do Castelo e no Largo Afonso III, trazendo à luz, sistemas de canalização, estruturas antigas e desativadas de gestão de águas, em excelente estado de conservação ou antigo pavimento da Rua D. Paio Peres Correia. No Largo D. Pedro I os resultados foram “transformadores para o conhecimento que tínhamos do urbanismo do Centro Histórico”, notou Alexandra Pires. A descoberta provou que este largo é recente, revelando que o urbanismo medieval da zona era muito mais fechado e denso. “Mas a descoberta mais estimulante e mais importante para o conhecimento da cidade” incluiu o vestíbulo do edifício dos Hammam (Banhos Islâmicos), canalizações cerâmicas embutidas nas paredes para transporte de água, uma latrina e sistemas de escoamento das águas sujas.
Foram também encontrados os restos da antiga fonte da vila, mencionada desde o século XIV e que terá sido a principal fonte a servir Loulé até um período recente, tendo sido substituída apenas no século XIX pelo chafariz das Bicas Velhas, o mais emblemático da cidade. Na intervenção mais recente (2024-2025), na Calçada dos Sapateiros confirmou-se um troço da muralha islâmica (atravessada por tubagens da década de 50 do século passado). “São vários momentos que aquele lugar viveu, sofreu e que chegaram até nós”, referiu Rui Almeida. Pela primeira vez, foram identificados também algumas estruturas do período romano (dos séculos II a IV) no espaço urbano consolidado, mas, como sublinhou o arqueólogo, esta presença romana inédita não altera a origem da cidade; prova sim a existência de uma pequena comunidade agrícola (quinta ou casal), cerca de 600 anos antes da fundação do núcleo urbano atual.
A zona da Igreja Matriz concentrou a maioria dos achados arqueológicos, com a identificação de vários enterramentos. Os defuntos foram sepultados apenas envolvidos em mortalhas (sem caixão), como era habitual nestas épocas, deitados de costas e orientados com as cabeças a oeste e os pés a este, seguindo a ideia de estarem voltados de frente para o altar da igreja quando ressuscitassem. A equipa técnica sublinha que os trabalhos de campo foram executados com a máxima rapidez possível para mitigar as dificuldades de acessibilidade.
O trabalho arqueológico prossegue agora em fase de gabinete. Os materiais recolhidos no campo serão submetidos a estudos antropológicos detalhados nos próximos meses para determinar o perfil demográfico daquela população que habitou Loulé.
