Ainda me queima as mãos, e não é apenas por ter acabado de sair, por assim dizer, do forno editorial. Lufada de Ar, ensaio dito por muitos como seminal da ensaísta francesa Annie Le Brun, foi publicado a primeira vez em 1988, teve em 2011 uma reedição que mereceu um prefácio breve da própria autora e tem sido traduzido para várias línguas. Muitas vezes reparamos no que nos faltava quando, por fim, aparece, e em Portugal faltava este ensaio. Traduzido por Matteo Pupillo para uma língua fluída em que transparece a clareza do original, a edição da Barco Bêbado inclui ainda um posfácio de Eliane Robert Moraes sobre a autora e este ensaio.
O livro agora publicado de Annie Le Brun queima como o ar que se lança sobre a atmosfera do pensamento, abrindo nesse calor trilhos do pensar que, apesar dos mais de quarenta anos passados sobre a sua escrita, se ajustam ao andamento de hoje. Pensar acerca do que seja e de como seja no mundo a poesia (que é, afinal, do que trata) é uma reflexão sem data de validade, e as frases de Le Brun iluminam 2026 como acredito que tenham ajudado a clarificar algumas das ideias ainda no final da década de 1980. O tom com que escreve é de aflição – é essa palavra que a faz invocar Hölderlin, na p. 89 –, de revolta, de urgência por uma liberdade que constantemente reivindica e teme ver perdida no mundo de hoje, aquele que, no prefácio de 2011 à 2.ª edição do ensaio, caracteriza desde logo através das referências a Tchernobil e Fukushima: “Nessas condições, quem poderia ainda duvidar de um ar irrespirável, em sentido próprio como em sentido figurado?” (p. 7). O que Le Brun tenta em Lufada de Ar é “desobstruir, ainda que um pouco, o horizonte intelectual e sensível que se pode supor tão poluído quanto a própria atmosfera” (p. 8), porque “já não se trata apenas de uma questão literária, mas de respiração” (p. 28). Uma das maneiras como o faz passa por convocar o cerne da ideia surrealista, de que foi uma das mais brilhantes e subversivas agentes: a ideia segundo a qual a poesia, humano alento criativo próximo do de vulcões e terramotos, pelos seus “silenciosos deslizamentos de terra que redesenham o horizonte” e carregam o “fulgor da imagem” e, com ele, o desafio da liberdade. O perigo que torna urgente o pensamento de Le Brun é a perda dessa liberdade, e a perda dela precisamente enquanto desafio, impulso modernamente inibido, quer pela velocidade do quotidiano, quer pela indiferenciação das expressões artísticas (ou pela indiferença da arte), quer pela repressão do sonho (reino surrealista por excelência). (Re)ler Le Brun é abrir portas e janelas num edifício que clama por ser arejado, deixar que as correntes de ar (o vento é a poesia, ou a poesia é vento, diz a autora, a certa altura). É permitir vocalizar, numa “urgência que não [cede] à pressa” (p. 126), as “perguntas primeiras: Para onde vai a vida? De que liberdade dispomos? E o desejo, o desejo, onde encontra o amor?” (p. 73).
Se a baliza final de Le Brun foi o surrealismo, se foi nessa vaga que ela achou o rompante da sua voz, não é nesse movimento que a autora se detém: o texto convoca desde Ovídio a Mandelstam, passando por Dante ou pelo poeta sírio Abû l-Alâ al-Ma’arrî, para transpor as barreiras temporais e históricas e centrar o olhar na universalidade das imagens (poéticas, visuais) que poderão resgatar a alma humana.
Ana Isabel Soares é professora
Crónica publicada em:
Foto: Vasco Célio
