Uma nota de entrada: não tenho nada contra os abacateiros. São plantas, como tantas outras, cujos frutos têm grande valor nutritivo. O mesmo diria em relação a outras árvores, como a laranjeira ou o eucalipto. É a forma como estas espécies têm sido exploradas na região que me levanta alguma inquietação.

Vem isto a propósito do que está a acontecer no Algarve, incluindo no Parque Natural da Ria Formosa. A expansão da cultura do abacate continua a ganhar terreno, apesar de alguns pensarem – e até afirmarem – que existe algum tipo de controlo na sua instalação. Mais preocupante ainda: continua a expandir-se dentro de um parque natural que supostamente deveria zelar pela preservação de valores ambientais e paisagísticos. O tema ganha também especial peculiaridade pelo facto de vários projectos terem sido recentemente instalados na zona de Tavira, o município que se auto-intitula a capital da Dieta Mediterrânica, com tudo o que este conceito carrega em si.

Para quem este assunto despertar curiosidade, sugiro um passeio até Santa Luzia ou Pedras D’el Rei e ver o que ali foi feito nos últimos meses. Antigos pomares de sequeiro, com imponentes amendoeiras, oliveiras e alfarrobeiras centenárias, foram arrasados para instalar campos de abacates. Da diversidade que sempre caracterizou estes campos, passou-se à monocultura intensiva ávida em água.

Pode-se afirmar, e com alguma razão, admito, que não tendo os pomares de sequeiro o valor económico de outrora, os proprietários têm legitimidade para os transformar e converter em outras culturas mais rentáveis desse ponto de vista. Mas é aqui, precisamente, que as entidades públicas deveriam intervir. Se há um interesse superior a preservar, nomeadamente a defesa dos valores paisagísticos de uma região, da tão falada dieta mediterrânica ou da própria biodiversidade – sim, os pomares de sequeiro são incomparavelmente mais ricos em biodiversidade que as monoculturas de abacate – então actue-se no sentido de encontrar formas de compensação dos proprietários e garantir a preservação desses pomares e tudo aquilo que albergam. Aplique-se o que se anda a falar há anos – sem qualquer consequência prática, diga-se – os chamados serviços dos ecossistemas. Querem um caso prático para testar este conceito? Aqui têm um: salvem os pomares de sequeiro centenários, em particular os existentes em zonas sensíveis ou os com especial interesse ambiental ou cultural.

Mas o caso mais aberrante é, talvez, o que aconteceu junto a Cacela Velha, no seu lado nascente, colado à zona húmida. Um terreno que em 2018 foi totalmente desbastado pelo proprietário, tendo gerado inúmeras queixas e processos de contra-ordenação pelo ICNF, e que hoje se converteu num extenso abacatal. Toda a vegetação outrora ali existente foi completamente substituída por um vasto campo de tubos de plástico onde jovens árvores crescem. Isto numa das zonas mais belas da Ria Formosa, de especial valor cénico e ambiental, à revelia dos estatutos de protecção. Na altura, aquando da devastação ali ocorrida, o proprietário iria, segundo as notícias, incorrer em pesadas multas que chegariam aos milhões de euros. Teria ainda de repor a situação original. Pois hoje já sabemos o que realmente aconteceu.

O conflito entre agricultura e ambiente, tema tão actual e repetitivo, não tem motivo de ser, desde que exista estratégia, planeamento e respeito. Quando nada disto existe, o que temos, cada vez mais, é uma região cedida aos interesses dominantes e à sua lenta conversão em monoculturas, tanto agrícolas como turistico-imobiliárias, onde nem as áreas protegidas escapam. Foi para isto que foram criadas? Para proteger abacates?

João Ministro é empresário e engenheiro do ambiente

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