Há um pequeno planeta azul na órbita do Sol. Nesse planeta vivem milhares de milhões de peregrinos. Não peregrinos no sentido religioso da palavra. Peregrinos porque caminham. Porque procuram. Porque passam a vida inteira à procura de respostas para perguntas que raramente encontram solução. Quem somos? Porque estamos aqui? O que faz uma vida valer a pena?
Cada ser humano percorre o seu caminho carregando sonhos, medos, esperanças e cicatrizes. Uns caminham mais depressa. Outros mais devagar. Mas todos seguem viagem. Caminham por dentro, atravessando fases, quedas, reencontros, perdas e descobertas que nem sempre sabem nomear.
Esta crónica, na verdade, nasceu num momento muito concreto. Num instante de silêncio, na Notre-Dame do Luxemburgo. Foi ali, naquele espaço carregado de tempo, de silêncio e de presença, que percebi com nitidez esta ideia simples: que todos nós, de alguma forma, somos peregrinos. E que talvez não estejamos a caminhar sozinhos como pensamos.
Mas há algo que distingue estes peregrinos de simples viajantes. Eles não caminham apenas pelo espaço. Caminham pelo amor.
O amor é, talvez, a primeira grande desorganização do universo humano. Um peregrino olha para outro peregrino e, de forma completamente irracional, decide que aquele ser lhe é essencial. Não porque seja útil. Não porque seja lógico. Mas porque sim. Porque algo dentro dele reconhece, naquele outro, o seu próprio caminho. É assim que começa o amor.
O amor carnal, o amor romântico, aquele amor que desarma qualquer racionalidade. Dois peregrinos que se encontram e, por momentos, deixam de ser dois. Esquecem o planeta, tudo à sua volta, esquecem o ruído, esquecem até o medo. Ficam reduzidos a uma coisa simples e perigosa: a vontade de ficar.
Mas o amor não se esgota aí.
Porque há outro tipo de amor que não pede corpo nem posse. Um amor mais silencioso. Mais discreto. Mais resistente ao tempo. Chamam-lhe amizade.
E talvez seja aqui que a humanidade se salva. Há uma ideia que me acompanha há muito tempo, frequentemente associada a António Lobo Antunes, que diz que a amizade é uma das formas mais puras de amor. Um amor sem exigência. Sem propriedade. Sem cobrança. Um amor que não precisa de explicação para existir. E quanto mais se vive, mais se percebe que isto é verdade. Porque há peregrinos que entram na nossa vida sem aviso. E ficam. Não por obrigação. Mas por escolha.
Recentemente, tive a felicidade de encontrar alguns desses peregrinos no Luxemburgo. À partida éramos apenas desconhecidos, vindos de caminhos diferentes. Mas o que aconteceu ali ultrapassou qualquer formalidade. Fomos recebidos com uma generosidade rara. Com uma hospitalidade que não se ensina… sente-se!
Abriram-nos as portas. Abriram-nos as mesas. Abriram-nos o tempo. E, acima de tudo, abriram-nos o coração.
Rapidamente deixámos de ser visitantes. Passámos a ser parte de algo maior. Família, mesmo sem sangue. Irmãos, mesmo sem história anterior. E foi nesse momento que se percebeu com nitidez o que Lobo Antunes descreve tão bem: a amizade como uma forma pura de amor. Um amor que não precisa de ser explicado para ser verdadeiro. Um amor que simplesmente acontece.
Talvez seja por isso que os peregrinos se procuram tanto. Porque sabem, mesmo sem saber, que a caminhada é demasiado longa para ser feita sozinho. Há peregrinos que deixam marcas no corpo. Outros deixam marcas na memória. Mas os mais raros são aqueles que deixam marca na forma como aprendemos a amar os outros.
No fim de tudo, continuamos a ser apenas peregrinos num pequeno planeta azul. Peregrinos imperfeitos. Peregrinos inquietos. Peregrinos que erram, que procuram, que caem e voltam a levantar-se. Mas também peregrinos que amam. De muitas formas. Às vezes com paixão. Outras vezes com silêncio. Outras vezes apenas com presença. E talvez seja isso que nos salva.
Porque ninguém chega sozinho. E no fim desta caminhada, todos deixaremos para trás os títulos, os cargos, os prémios e as preocupações.
Mas permanecerão os afetos. Permanecerão os momentos partilhados. Permanecerão os amigos.
Porque fomos feitos para caminhar juntos.
E talvez a verdadeira chegada não seja um lugar.
Talvez seja isto: reconhecer, finalmente, que ninguém chega sozinho.
Júlio Ferreira é um inconformado encartado
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