1h da manhã, segunda-feira, as rodas batem na pista do aeroporto, não sem antes ocasionar «o tirar de medidas» na aproximação à dita e o habitual comentário dos demais passageiros próximos: «-ainda há dias tive de regressar três vezes…». Palmas e está tudo bem agora, depois de um trajeto muito atribulado e alterado nessa mesma tarde por aflição nas reservas canceladas.
Em 1418, quando os navegadores da Casa do Infante no Algarve, acharam a localização das ilhas no Atlântico, nem imaginavam onde chegámos hoje em obras, equipamentos, infraestruturas, a desenvolver o que encontraram e onde vivem, hoje, 250 mil pessoas e passam férias 3 milhões de outros vindos de outras origens.
Para um algarvio, que já veio cá ao tempo da outra pista, a diferença é enorme. Túneis, viadutos imensos, vias rápidas de 4 pistas por todo o lado.
Bem-dita autonomia… ter um orçamento regional e órgãos próprios, responsáveis perante os eleitores, é outra coisa. Imagine-se, algo parecido, mas menos que isto, no Algarve, em 1998. Nós com 450 mil habitantes e 8 milhões de turista/ ano não estaríamos, mas estamos, pior, em comparação.
Funchal, com 40 por cento do total dos habitantes da ilha, continua simpática e acolhedora. Os mais de 30 grupos folclóricos da ilha, mesmo à segunda-feira, continuam em grande azáfama e, felizmente, já dançam com os joelhos menos flexionados, não prestando receio aos senhores que antes dirigiam as fazendas, olhando o futuro de frente.
Mas as semelhanças com o Algarve são mesmo flagrantes. Imensa falta de habitação, inflação regional muito mais alta que a do restante no continente, imigração, remunerações baixas. Também aqui a produção agrícola local não merece o respeito, pelo preço, na diferença da venda nas áreas comerciais. Mas, o novo hospital em fase muito mais adiantada nas obras a olhos vistos.
Mas, um enorme cuidado com o espaço público e na simpatia do acolhimento. Sabem que vivem disto.
Nestas 24 horas de estadia, vim a propósito da tentativa de colaborar com soluções na área da habitação. Sim, a minha experiência pessoal de há quase 40 anos, com outros, então necessitados como eu, agora que estou no tempo de defeso ético na gestão da saúde, parece útil.
Parece impossível, mas infelizmente, o tempo de produção de construção de habitação a custos controlados também parou e deu na carência de 300 mil fogos que são urgentes no país, para rendimentos que não suportam a atual pouca oferta que está a preços muito incrementados pelo enorme sucesso do país junto da procura externa endinheirada que deseja segurança e bom clima.
Incrível que uma ideia de 1991, a habitação jovem evolutiva, realizada em Faro, por cooperativa, seja ainda «novidade» desejada por fazer acessível e ajustável uma casa (e uma hipoteca) para os que vão ter um expetável aumento nos agregado e nos rendimentos no futuro.
Que a possibilidade de inclusão partilhada de mais idosos nos programas habitacionais, com equipamentos adequados, seja uma ação virtuosa na vivência intergeracional, que a contrapartida municipal em «casas de função», para atrair profissionais de saúde, de segurança, de professores, promovendo o interclassismo e afastando o estigma social, seja notícia num país, em que antes e numa década, as cooperativas construíram mais de 120 mil fogos para quem precisou, mas deixaram de ser apoiadas.
Perdemos o foco nos que cá vivem e demos primazia à criação de empregos nos setores que já conhecemos, mas não fazem aguentar os custos de uma economia aberta.
O Estado tem que regular e apoiar, não pode declarar, como se fez localmente, tempo demais, «o mercado resolve». Deu nisto. Estamos atrás do prejuízo com evidentes impactos sociais.
O Funchal é mesmo, com o Algarve e Lisboa, onde o preço por m2 de construção e custos de produção é mais alto e, na Madeira, o índice de sobrelotação dos alojamentos o mais grave.
24 horas depois, já de regresso ao Algarve, brindo a um futuro de melhor decisão numa autarquia regional, com um vinho da Madeira, como há 250 anos atrás, os pais fundadores dos Estados Unidos da América, o fizeram em 4 de julho de 1776, celebrando a sua independência.
Paulo Neves é um «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha
