El tiempo es un río que me lleva, pero yo soy el río;
es un tigre que me devora, pero yo soy el tigre;
es un fuego que me consume, pero yo soy el fuego.
Jorge Luís Borges
Houve um tempo em que eu não parava. Não havia tempo para ouvir, só havia tempo para trabalhar. As pessoas, amigos, colegas, entravam-me pelo gabinete adentro e eu falava, ouvia e não parava de fazer o que estava a fazer naquele instante: enviar um email, ler um documento, corrigir um exame. Não é que não os ouvisse. Ouvia e tentava dar o meu melhor: acolher, compreender, dar respostas. Mas tenho a certeza de que as pessoas pensavam que eu não estava a ouvi-las ou a abraçá-las em silêncio. Porque eu não estava a dar-lhes, nem que fosse apenas um minuto, da minha atenção plena.
Ontem, enquanto falava com uma colega no umbral da porta do gabinete, a pensar que tinha 30 coisas à espera, fiquei ali a falar, a ouvir, a dar-lhe, de facto, o meu tempo. Pensei nessa mudança de atitude que tenho vindo a adotar há uns anos. Nada é mais importante do que as pessoas que nos querem bem. Nada deve ser mais inadiável do que um abraço, um olhar carinhoso, um sorriso, um estar ali num dado instante.
Sábado fui a Querença moderar uma conversa no âmbito das comemorações do aniversário de Lídia Jorge e ela, muito educada, antes de subirmos ao palco, apertou-me a mão e disse: “Muito obrigada pelo seu tempo. Por ter encontrado tempo para estar aqui”. Ela sabe o valor do tempo e sabe ainda melhor o que significa dar tempo aos outros. Nem sempre é fácil. E eu, que não sou a pessoa mais efusiva da face da Terra, às vezes posso parecer que não estou ali, de corpo e alma. Que não sofro com, que não me alegro com, que não sinto com. Um amigo disse, certa vez, a uma pessoa que esperava de mim uma reação mais animada ou visível, que aquele era o meu modo mais efusivo de dizer que estava contente.
O meu modo mais efusivo de ser é dar aquilo que tanto me falta, e a todos nós, a bem dizer: o meu tempo. Não é uma concessão, um gesto de condescendência, uma obrigação. Noblesse oblige. Aprendi que dar o nosso tempo é uma forma de demonstrar o nosso apreço, é uma forma de abraçar as pessoas, é uma forma de dizer: “Estou a ouvir”. E ouvir alguém é uma arte que se está a perder num tempo em que todos temos muito que falar. Dar o nosso tempo é darmo-nos também, é estarmos verdadeiramente presentes. É dizer, à nossa maneira: “Estou aqui”.
Mirian Tavares é professora
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Foto: Isa Mestre
