E de pensar que não somos
Os primeiros seres terrestres
Pois nós herdamos uma herança cósmica
Errare, errare humanum est
Errare, errare humanum est.
Jorge Ben Jor

No outro dia li que a nova tendência entre alguns CEOs estadunidenses é a de cometer erros. «Sujar» os textos, de propósito, para que não pareçam escritos por uma IA. Uma pequena gralha ali, um erro de concordância acolá – o erro é, e sempre foi, a nossa marca de humanidade. Li também que as pessoas mais furiosas com as IAs são aquelas que escrevem bem, que já escreviam bem antes do fenómeno IA e que continuam a escrever bem, sem auxílio de um deus ex-machina. Escrever bem, de forma escorreita e bem estruturada, tornou-se a marca da platitude textual fornecida pelos textos produzidos ou cozinhados entre humanos e máquinas. Lembro-me do filme Wittgenstein, de Derek Jarman: o filósofo buscava a compreensão, ou a apreensão, total do mundo, queria eliminar as rugosidades da linguagem, evitar os mal-entendidos. No fim do filme, o inusitado narrador, uma espécie de extraterrestre, diz que o filósofo descobriu que as superfícies planas não são habitáveis. Sem o atrito escorregamos e não nos conseguimos deslocar. A platitude, ou o equilíbrio, são valorizados na cultura ocidental porque representam um caminho reto, um aspeto de limpeza, o lugar que buscamos depois de tantos solavancos que enfrentamos na estrada da vida. Andamos com GPS, já nem olhamos as ruas ou estradas, não nos permitimos «errar». Porque errar também significa vaguear, perder-se de propósito, caminhar sem destino ou rumo certo. Errar é antiprodutivo e assustador, por isso passamos do ponto A ao ponto B sem desvios. Eu tenho a sorte de não me entender com o GPS e continuar a perder-me mesmo seguindo as suas instruções. Porque gosto de errar, de descobrir novos caminhos, de perder-me e de encontrar-me. Não falo apenas dos caminhos físicos, mas penso também nos virtuais. Queremos saber sobre alguma coisa e perguntamos a uma IA, pois os buscadores trazem acoplado algo que parecia ser uma função auxiliar – a possibilidade de a resposta ser dada pela inteligência artificial, e que tem se tornado o verdadeiro motor de busca. Sem desvios. Sem a possibilidade de encontrar um link para um texto inesperado ou desconhecido. Quando fazia a licenciatura, no século passado, tinha o estranho hábito de ir à biblioteca fuçar prateleiras. Descobri, por exemplo, que a busca por um enterro digno provocou o surgimento de cooperativas agrícolas e a consciencialização dos trabalhadores, que veio à reboque. Descobri tanta coisa simplesmente errando pelas prateleiras. Estava à procura da locução latina Errare Humanum Est e descobri, por acaso, uma música do Jorge Bem Jor que desconhecia. O erro, tão condenado, parece ser o caminho para a recuperação da nossa humanidade. Erro, logo existo.

Mirian Tavares é professora

Crónica publicada em:

Foto: Isa Mestre