Volto a Veneza. Preparo-me para revisitar paisagens, recantos, sensações, emoções. Logo à chegada, a confirmação: Veneza continua linda. Parece-me até mais cuidada, mais limpa do que me lembrava.

Começo por tirar as fotografias que trazia em mente (sinal dos tempos): o clássico antes e depois. Constatando que a idade não veio melhorar coisa nenhuma, passo sem demora ao que não envelheceu: os monumentos, as pontes, a água, os cafés…

Percorro os caminhos da memória e, munida de outros conhecimentos e leituras, acrescento-lhes novos lugares, novos trajetos. Procuro uma Veneza secreta. Aquela onde vivem os venezianos. A verdadeira Veneza que os escritores me garantem existir.

Venho em busca da autenticidade, da realidade que turistas como eu teimam em procurar, fingindo ignorar que a única coisa verdadeira nas cidades turísticas da Europa é a produção da ideia de verdadeiro. O fabrico de uma ilusão de autenticidade que já ninguém sabe bem o que significa.

Ainda assim, visito zonas da cidade que nunca teria descoberto sem estes «guias literários»: lugares tranquilos, ruas onde não sou empurrada pelo fluxo contínuo e massivo de turistas.

Regresso a Portugal com a satisfação de quem fez uma visita especial. De quem viu mais do que a superfície acessível a todos.

Ah, a inevitável presunção de se ser um turista de casta superior.

Mas a satisfação não é plena. Pelo menos, não como esperava. Permanece em mim a sensação de faltar qualquer coisa: algo que não fiz, que não vi… um vazio inexplicável.

Pergunto-me se terei ido à procura de um «eu» pretérito, da repetição de uma experiência irrepetível. Mas depressa percebo que não. Não fui com essa expectativa. Fui para um reencontro com a cidade, mediado pelo olhar e pelas palavras de escritores. E esse reencontro aconteceu.

Inesperadamente, é nas páginas de um outro romance que encontro a resposta. Ao ler Quem Rasgou os Meus Lençóis de Linho?, de Dora Gago, percebo finalmente o que me faltou.

Num capítulo em que refere o Hotel Venetian Macau, a narradora apresenta-nos essa réplica chinesa da Sereníssima. Ali, filipinos entoam “O sole mio” num italiano improvisado e a paisagem truncada poupa o turista às cansativas caminhadas da cidade original.

E é então que compreendo que esta ideia de uma Veneza falsa, construída, artificial, não está assim tão distante da que visitei. Que fantasia e realidade estão perigosamente próximas. A pergunta que se coloca em ambos os casos é a mesma: onde estão os venezianos?

Há qualquer coisa de profundamente errado numa cidade que se oferece para ser visitada dispensando os seus habitantes. A cidade turística existe como um destino de turismo cultural sem povo. Um museu.

Os turistas são os donos temporários do lugar que visitam, muitas vezes apenas durante algumas horas. São eles que encontramos por toda a parte. Vamos a Veneza ver edifícios, ver paisagens… e ver turistas.

Podíamos estar ali ou noutro ponto qualquer do mundo, num lego montado por um milionário excêntrico no seu quintal das Arábias.

A viagem a Veneza não foi prazerosa como esperava. Percebo agora o porquê. E pergunto-me se, no momento em que nos dispusemos a visitar destinos esvaziados de almas, não ditámos o fim da viagem turística.

Pergunto-me o que é uma cidade que existe apenas para ser visitada. Por que aceitamos a ausência de habitantes como uma consequência natural da nossa presença? Ou se, simplesmente, já nem damos por ela?

Escrevo sentada numa esplanada em Belém. Não avisto um português. Ainda existirão lisboetas nesta zona da cidade?

Apetece-me bater a uma porta e perguntar:

– Está aí alguém?

Sílvia Quinteiro é professora

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