Por definição, devido às características das fontes sonoras e do seu volume elevado, o barulho é algo que provoca incómodo e mal-estar. Daí, corrigir muitos dos meus contemporâneos quando catalogam determinada música como barulho. Basta não se entender ou não gostar de determinado género musical, a música ter algum grau de distorção, de dissonância ou estar a ser reproduzida numa intensidade demasiado elevada para ser, rapidamente, arrumada na categoria de barulho.

Em 1994, testei esta minha teoria após ter adquirido o cd do guitarrista Pat Metheny «Zero Tolerance for Silence» e o coloquei a tocar em casa. Tal como era previsível, todos os meus familiares me perguntaram qual era a razão por que estava a ouvir aquela «barulheira». No ano seguinte, voltei a observar a reação doutros ouvintes quando o mesmo artista apresentou algumas músicas desse disco num concerto realizado no Coliseu do Recreios em Lisboa. A reação de incómodo e de agitação não se fez esperar. Provocadora e corajosamente, o criador/músico tinha atingido um dos seus intentos: transformar música em barulho, tal a experiência radical de, publicamente, criar puro ruído e improvisação livre a partir da manipulação sonora.

Já neste século, na maioria dos concertos de música Pop e Rock com grupos portugueses a que assisti, comecei a ouvir o chavão/clichet “Façam barulho!”. Ainda hoje me provoca alguma prurido e confusão, pois sempre que o mesmo é proferido e pedido, o efeito resulta, inevitavelmente, em desprimor e prejuízo da música interpretada, pois o tal «barulho» solicitado na forma de gritos e de urros sobrepõe-se ao que realmente importa - a Música. Obviamente, compreendo a estratégia de tentar exacerbar os ânimos, levando o público a uma incontida efervescência e ebulição musicais. Entendo, mas para quem, como eu, quer realmente apreciar e desfrutar a música, o silêncio é - e será - (sempre) de ouro!

Volta e meia, quando coloco determinadas músicas para os meus alunos escutarem e, assim, melhor contextualizarem as competências exploradas, frequentemente fecho os olhos e, não raras vezes, os mesmos alunos cochicham entre si, dizendo “Olha, o professor deixou-se dormir!”. É um facto: ouvir música de olhos fechados é uma experiência que intensifica a conexão com o som, permitindo que cada nota, melodia e silêncio seja vivida com mais profundidade. Ao eliminar estímulos visuais, a pessoa entrega-se totalmente à música, mergulhando num universo sensorial onde os sentidos se aguçam e as emoções emergem com maior clareza. Este simples ato transforma a audição num momento de introspeção e de prazer genuíno, renovando o valor da música e incentivando uma apreciação mais sentida e completa. Retirado do provérbio “A palavra é prata, o silêncio é ouro”, em que se exalta o valor da sabedoria, da reflexão e da escuta ativa em relação à comunicação impulsiva, muitas vezes partilho a importância e o valor de saber ouvir, destacando o facto de termos dois ouvidos para apenas uma boca.

A vida humana oscila entre dois gestos fundamentais: afirmar e escutar. “Façam barulho!” é o impulso dionisíaco - o grito que rompe a inércia, que convoca o coletivo, que recusa a invisibilidade. “O silêncio é de ouro” é o gesto apolíneo - a contenção que permite ver com clareza, a pausa que revela o que o ruído esconde. A verdadeira sabedoria não escolhe um lado, ela reconhece que o barulho é a força que muda o mundo e o silêncio é a força que muda o sujeito. Viver melhor é, por isso, saber quando cada força deve prevalecer.

Porque “O sábio não é o que fala pouco ou muito, mas o que fala quando a verdade precisa de voz e se cala quando a alma precisa de espaço”.

Paulo Cunha é professor

Crónica publicada em:

Foto: Daniel Santos