O Programa Regional Algarve 2030 lançou o desafio e a resposta chegou pela cultura. Com um investimento de 1,14 milhões de euros, dos quais 687 mil comparticipados pelo FSE+, nasceram onze projetos que provam que o teatro, a música, a dança e as artes visuais são mais do que entretenimento. São pontes. Pontes que ligam quem está isolado, quem se sente à margem, quem foi esquecido.
Cada projeto dá rosto à diferença. Em Faro, «Os Invisíveis», promovido pelo Teatro Municipal, inclui reclusos, migrantes e idosos em oficinas criativas. Em Tavira, o projeto «Dansanté em Tournée» leva aulas de dança aos seniores. Portimão acolhe «Recordar é viver, Histórias de uma vida», da associação Dancenema, envolvendo idosos. Em Quarteira, o «QuART Tiles» convida crianças migrantes e comunidade escolar a criar um mural coletivo de azulejos numa das principais artérias da cidade. Em Alta-Mora, no interior algarvio, o projeto «Cultura ao Montes» mantém tradições vivas ao mesmo tempo que promove bem-estar e capacitação dos mais velhos. Em Lagoa, o município lançou o «Tudo Incluído», voltado para migrantes, pessoas com deficiência, jovens NEET e cidadãos com problemas de saúde mental. Já em Lagos, no Bairro dos Moinhos, a associação Questão Repetida dinamiza o projeto «Linha Comum», que cruza arte e ambiente para transformar a comunidade.
Até 2027, centenas de pessoas em todo o Algarve vão passar por estes projetos,
Projeto Camarata
À porta do Centro Comunitário do Chinicato, Júlia segura orgulhosa a t-shirt que pintou com um cavalinho. Aos 65 anos, antiga trabalhadora da hotelaria, vive uma reforma antecipada por invalidez. Sempre gostou de trabalhos manuais, mas só agora se estreou na pintura em tecido. É uma das participantes do projeto Camarata, promovido pelo LAC – Laboratório de Atividades Criativas, em Lagos. Ao lado da irmã e dos vizinhos, tem estado presente em várias atividades e alinhou em dois passeios organizados pela equipa: um às Fontes de Estômbar, outro a Alcalar e ao Museu de Portimão. “Nunca lá tinha ido, às Fontes. É bom sair daqui, conhecer coisas novas, o convívio”, conta, com um sorriso tímido.
O Camarata atua nos bairros 25 de Abril e Chinicato, junto de moradores em situação de vulnerabilidade, na maioria utentes dos Centros Comunitários do CASLAS. Nuno Pereira, responsável pelo Lac, explica que o objetivo é proporcionar momentos culturais às pessoas. Não as queremos “evangelizar, apenas que experimentem”. Desde arraiais, workshops de cerâmica, atividades que envolvem filmes, música ou sessões de conversas com o bairro. “No Chinicato, por exemplo, uma dessas sessões comunitárias vai servir para as pessoas decidirem o que se vai pintar num mural. Afinal, é o espaço delas e devem ser elas a refletir e decidir sobre isso”, acrescenta Nuno Pereira. São várias as ferramentas para construir essas pontes com o histórico bairro «dos índios da Meia Praia» ou com os moradores da rua das operárias conserveiras, do rouxinol e a rua das andorinhas, no Chinicato.
O Camarata tem financiamento aprovado de 96 mil e 538 euros, dos quais 57 mil e 923 euros comparticipados pelo FSE+, e decorre até janeiro de 2028.
Festival de Artes Inclusivas: um palco aberto a todos
A premissa é simples, mas poderosa: a arte pode ser um elemento-chave no caminho da inclusão. É a partir desta ideia que nasceu o Festival de Artes Inclusivas, promovido pela Teia d’Impulsos. O projeto quer dar visibilidade ao trabalho das várias entidades que por todo o Algarve, através da arte, atuam junto de grupos vulneráveis, como as pessoas portadoras de deficiência. Apesar de sediados em Portimão, percorrem diferentes pontos do Algarve, envolvendo vários parceiros. Em Tavira, crianças da Fundação Irene Rolo dançam em palco improvisado; em Portimão, a cerâmica foi o mote para a expressão criativa. Dois workshops esgotaram em duas horas. A adesão de jovens adultos que estão em instituições foi surpreendente. Em novembro, houve uma residência artística de três dias, no Instituto Português do Desporto e Juventude, em Faro, destinada a pessoas em situação de vulnerabilidade, acompanhadas por entidades algarvias.
O projeto tem financiamento aprovado de 51 mil e 15,93 euros, dos quais 30 mil e 609,56 euros comparticipados pelo FSE+, e decorre até julho de 2026
Fábrica de Memórias, em Monchique
No cimo da serra, onde a névoa cobre as manhãs e tantos saberes ancestrais, nasceu a «Fábrica de Memórias». Aqui, tradições que pareciam condenadas ao esquecimento voltam a ganhar vida: mãos que ainda sabem entrelaçar o vime, recuperar cadeiras de tesoura, fiar lã nos teares, tecer cestos de verga, ganham importância. Há vontade de aprender, de registar como se faz, de ouvir a experiência. O trabalho da Associação Vicentina e do Município de Monchique tem apontado mira à sabedoria de pessoas humildes, que, quando são escutadas, reforçam a autoestima.
Começou no início de 2025, o projeto que dá palco às vozes mais frágeis da comunidade — idosos em isolamento, migrantes, famílias em risco, crianças vulneráveis, mas também artesãos, muitos deles estrangeiros que escolheram a serra como casa. Procura-se romper estereótipos e combater o sentimento de inferioridade associado a grupos vulneráveis e territórios desfavorecidos.
A memória passa de mão em mão: histórias recolhidas em entrevistas a idosos, contos, canções e lengalengas são editados em revista e guardados numa base de dados digital. Da cozinha, trazem-se as receitas de sempre, que entretanto são já tesouro: do bolo de tacho aos milhos aferventados, dos enchidos ao medronho. Nas escolas, a tradição plasma-se em jogos didáticos e trabalhos sobre a cultura do concelho. Vão ser envolvidos o 1.º e 2.º ciclos, mas também há uma iniciativa para jovens entre os 15 e os 18 anos. O património material e imaterial é herança que se passa e de que se orgulha. Projeto com o apoio de quase 114 mil euros de comparticipação do FSE+
LISTA DE PROJETOS APROVADOS
Os Invisíveis » Teatro Municipal de Faro – Serviços Municipalizados
Dansanté em tournée » ARTificiAL – Associação Artística e Cultural do Algarve
Festival de Artes Inclusivas » Associação Teia d’Impulsos
Fábrica de Memórias » Associação Vicentina / Município de Monchique
Cultura aos Montes » ARCDAA – Associação dos Amigos da Alta Mora
Projeto Camarata » LAC – Laboratório de Atividades Criativas
Recordar é Viver, Histórias de uma Vida » Associação Cultural Dancenema
QuART TILES » Freguesia de Quarteira
Dançar com a Diferença em Tavira » Município de Tavira
Tudo Incluído » Município de Lagoa
Linha Comum » Questão Repetida – Associação
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