Chego a Lisboa às três da tarde. O termómetro do táxi acusa 36 graus. Um forno. O motorista, contudo, entende que não há motivo algum para ligar o ar condicionado. Transpira. Transpiramos os dois. Na verdade, suamos em bica, e poderia até fazer uma comparação mais visual, mas não seria elegante.

Vou a caminho de um evento. Sinto a roupa colada ao corpo e um cheiro a azedo que me indispõe. O dono do volante, esse, parece achar que está tudo ótimo. E, como está tão bom e apetece, decide presentear-me com uma volta extra por Alcântara. Tenho o ar desorientado de quem não imagina onde fica o Largo do Carmo. Cara de turista. Estou mesmo a pedi-las.

Chegamos, finalmente, não ao destino certo, mas um pouco mais abaixo. Excelente! O que me faltava agora era uma boa subida. De saltos…

Pára numa rua estreita. Vejo o taxímetro: o valor é quase o dobro do habitual. Pago em dinheiro. O taxista suspira e conta o troco tão lentamente quanto possível. Atrás, apitam. E ele conta e reconta. Estende-me uma mão cheia de moedas pequenas. Lamenta-se. Entrega-me uns cêntimos, deixa cair outros e retém alguns entre os dedos, embrenhado na manobra para ficar com uns centavos.

E enquanto me pergunto como é que, depois desta viagem tão encantadora, não me ocorreu deixar uma gorjeta generosa, ele continua a olhar para as moedas que vão caindo entre os bancos:

- Fico-lhe a dever estes.

Não reclamo.

Uns cêntimos. Foi isso que lucrou. Fico a pensar no que leva alguém a dar-se a tanto incómodo para ganhar uns míseros tostões. E, por esta altura, já não sei dizer se o calor que sinto vem de fora ou de dentro.

Tendo vivido quase toda a vida no Algarve, recordo as histórias sobre turistas magnânimos e sovinas. Histórias de sortudos que num golpe recebiam o ordenado de uma semana e de injustiçados que, depois de terem sido tão simpáticos, tão prestáveis, não tinham recebido nada. Contavam como lhes tinham carregado as malas, como os tinham levado ao quarto quando estavam demasiado embriagados, descreviam os mais inacreditáveis fretes…

Abomino a cultura da gorjeta. Por muitas histórias que ouvisse, por muito que endeusassem os mãos largas e se gabassem da gorjeta conseguida, nunca entendi este ato como gratificação. Vi-o sempre como humilhação. Como uma esmola travestida de gentileza. Nunca percebi por que razão não podem as pessoas ser devidamente remuneradas pelo que fazem, em vez de viverem do acaso de uma nota passada disfarçadamente ou uma moedinha deixada num prato pelos clientes.

Penso em como me sentiria se tivesse de esperar no final de cada aula que me viessem deixar «alguma coisa» na secretária. Ou se teria melhores resultados aguardando à porta com um cestinho na mão?

Como seria ter de estar constantemente a tentar agradar, a sorrir?

E não me venham falar em ser bom profissional e humilde, porque os bons profissionais pagam-se, sem favor e sem esmolas, e também não é de humildade que se trata: é de necessidade, quantas vezes de desespero. É trabalhar sem a certeza de se ter dinheiro para pagar a renda, a prestação do carro, os medicamentos, o material escolar dos filhos. Humildade é outra coisa. Implica que a dignidade esteja assegurada.

Sílvia Quinteiro é professora

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