Existe o Rei dos Frangos, o Rei dos Táxis, o Rei das Francesinhas e provavelmente o Príncipe Herdeiro das Bifanas. Portugal é um país com uma relação saudável com títulos: quanto mais pomposo, melhor. Podia ser Duque dos Frangos ou Conde dos Táxis, mas não.
Tenho um amigo que, sem qualquer eleição formal ou consenso, podia perfeitamente reclamar o título de Conde dos Provérbios. É daqueles amigos que distribui provérbios como se fossem conselhos de vida certificados pelo Estado. E o mais grave é que todos nós ouvimos como se aquilo fizesse sentido.
Na véspera do último feriado, voltámos a cair no erro habitual: sentar-nos para “falar um bocado". O problema é que acabamos sempre por reinventar a filosofia moral do país. Ele falava, eu e os restantes três respondíamos com outro provérbio, aquilo parecia uma assembleia geral da sabedoria popular, mas sem ata e confesso... com pouca coerência.
E foi hoje, com esta dor de cabeça provocada pelo muito gelo colocado no interior dos copos de refrigerante e ice tea, que me dei conta: os provérbios estão em perigo. Há uma estranha mania contemporânea de melhorar coisas que funcionavam perfeitamente. Pegam numa coisa simples, espontânea e útil, desmontam-na, retiram-lhe a graça e devolvem-na ao público embrulhada em palavras caras.
Os Provérbios, por exemplo. O provérbio popular tem uma missão simples: condensar uma ideia em meia dúzia de palavras. Como escreveu Gonçalo M. Tavares: “Os provérbios são uma espécie de ensinamento ancestral, urbano, mas também do campo e de todos os lados do Mundo, que são caracterizados por serem muito rápidos, muito sintéticos e por serem muitas vezes divertidos, outras vezes rimados, com ritmo. E são muitas vezes, também, achados verbais”.
O provérbio nasceu para resolver um problema concreto: havia uma ideia para transmitir e ninguém estava com disposição para ouvir uma conferência. Os provérbios são a literatura do impaciente. Foram criados por pessoas que tinham campos para lavrar, peixe para vender ou vinho para beber. Não tinham tempo para notas de rodapé. Por isso, condensaram séculos de observação humana em meia dúzia de palavras. É uma forma de inteligência particularmente irritante para quem ganha a vida a escrever muito sobre coisas que poderiam ser ditas rapidamente. Mas os provérbios enfrentam agora um problema novo. Já não basta explicá-los. É preciso corrigi-los.
Tomemos o célebre "Agarrar o touro pelos cornos". Durante séculos significou enfrentar um problema difícil. Hoje corre o risco de ser acusado de maus-tratos a animais. Não tarda alguém proponha uma versão mais inclusiva: "Dialogar construtivamente com o touro acerca das suas expectativas e necessidades emocionais".
O mesmo acontece com "Quem tem medo compra um cão". Há sempre alguém disposto a esclarecer que os cães não devem ser comprados, mas adotados. E imediatamente o provérbio deixa de ser um provérbio para passar a ser um folheto institucional.
Quanto a "Vozes de burro não chegam ao céu", imagino já a indignação.
"Porquê os burros?", perguntarão. "O burro é um animal injustiçado." E têm razão. O burro carrega uma reputação terrível há séculos. Se tivesse sindicato, metade da sabedoria popular portuguesa estaria neste momento em tribunal.
Aliás, o burro é vítima reincidente. Basta lembrar "Burro velho não aprende línguas". Não aprende porquê? Houve investimento público suficiente na formação linguística dos burros? Foram criadas condições? Houve bolsas Erasmus para asininos?
Algum burro de Trás-os-Montes teve oportunidade de passar um semestre em Manchester para aperfeiçoar o inglês? Houve programas de intercâmbio? Cursos certificados? Não. E depois admiram-se dos resultados. Os burros são provavelmente o grupo mais discriminado da literatura popular portuguesa. Se a União Europeia tivesse uma Direção-Geral para os Direitos Asininos, metade dos provérbios nacionais já estaria sujeita a coimas.
O mais curioso é que já não surgem provérbios novos. Reparem nisto.
Todos os provérbios que conhecemos são mais velhos do que nós. Alguns são tão antigos que já assistiram à queda de impérios, ao aparecimento da eletricidade e a várias mudanças de operador de telecomunicações. Mas alguém conhece um provérbio criado no ano passado?
Eu não. E isto é preocupante. Este país, tal como está, precisa de mais vernáculo.
Será que o povo deixou de produzir sabedoria popular? Será que passou a produzir apenas comentários? Será que a frase lapidar foi substituída pela caixa de comentários?
Antigamente uma observação certeira transformava-se num provérbio. Hoje transforma-se numa discussão de cento e vinte mensagens em que dificilmente alguém muda de opinião, mas todos saem convencidos de que ganharam.
Perante este vazio, decidi dar o meu contributo para o património nacional.
Proponho alguns provérbios para 2026:
"Quem ri por último é porque não percebeu a piada".
"Em terra de cegos, quem tem um olho é ciclope".
"Pedras no caminho? É melhor que nos rins!".
"Os cães ladram, os gatos miam".
"Quem brinca com o fogo, deve trabalhar no circo".
"Águas passadas. já passaram".
"Quem não arrisca não come a patanisca".
"Quem muito cedo se levanta, mais tempo espera pra almoçar".
Não sei se algum destes sobreviverá aos séculos. Talvez não.
Os provérbios verdadeiros têm a vantagem de serem testados por gerações inteiras antes de entrarem para o catálogo nacional da sabedoria. Receio até que, dentro de poucos anos, os provérbios deixem de existir. Em seu lugar teremos documentos orientadores de sabedoria tradicional participativa, sujeitos a consulta pública, avaliação de impacto e disponíveis para download em PDF. Pessoalmente, sou defensor da popularização da intelectualidade e não da intelectualização da cultura popular. Não precisamos de transformar os provérbios em teses de doutoramento. Precisamos apenas de continuar a produzir frases simples, certeiras e capazes de sobreviver ao tempo. Porque um povo que perde os seus provérbios acaba inevitavelmente condenado a substituí-los por comunicados.
Júlio Ferreira é um inconformado encartado
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