Ouço muito a rádio, a minha telefonia. Sempre ouvi, sempre houve rádios acesas nos meus ambientes: na cozinha da casa dos meus pais, na cozinha da casa dos meus avós paternos (talvez menos na mercearia dos maternos, mas, sim, talvez na zona da cozinha) – agora, sobretudo na minha cozinha, no carro, e ao lado da almofada na cama onde durmo, lá está o pequeno transístor com 59 minutos de autonomia, que ligo assim que me deito à noite e fica a velar-me a primeira hora de sono, mesmo se adormeço ao fim de uns segundos (e adormeço, por mais interesse que tenha no que estiver a ouvir). Gosto muito de ouvir a rádio, porque me agrada aprender e ser surpreendida. Ouço sobretudo a Antena1; até há pouco tempo, punha-me à escuta assim que acordava e apanhava o José Candeias a conversar ao telefone com distribuidores de pão, camionistas pelas estradas do país e por essa Europa fora (e mais longe!), reformadas ou outros insones, que me distraem entre as 5 e as 7, e daí continuava, pelo programa da manhã adentro, com rubricas sobre certas canções, uma palavra, portugueses pelo mundo, comentário político e económico, tudo ligado com música ligeira, sobretudo portuguesa. O panorama destas horas da manhã, das 7 para cá, mudou e é raro o dia em que a minha paciência vai para lá do noticiário das 7 (depois disso, são anunciados os destaques do que será a rubrica do futebol, depois a rubrica do futebol propriamente dita, pouco depois os comentários sobre o futebol, e eu, que até já fui ver jogos a estádios e torço pelo Ferróbico e pelo Farense, não consigo juntar pachorra para tanto paleio que nada me ensina) – ultimamente, o aparelho da cama continua na 1, mas o da cozinha passou para a 2, que era a estação que ouvia apenas no carro. Vidas. Paciências. E a idade.

Há dois ou três programas, no resto do dia, que continuo a gostar de ouvir: o Costa a Costa, que sigo de estação em estação e agora me prende ao sábado à noite; o Terra Média, às terças à noite, o Uma Noite em Forma de Assim, noutras noites, quando apanho, ao acaso (e onde sigo os Panfletos, que o jornalista Pedro Tadeu mantém vivo, herança do grande Ruben de Carvalho, que tanto me ensinou). Mas outro mais recente me te agarrado e procuro, mesmo se não consigo ouvir em direto, apanhar na RTP Play (que considero uma bela plataforma e que uso amiúde): O Movimento das Coisas, que foi buscar o nome ao belíssimo (e tristemente único) filme de Manuela Serra. Começou a ser emitido em março e tem desde logo a voz e o pensamento da Joana Bértholo. Mas não é só a voz, nem só a Joana: a escolha dos assuntos, presentes, prementes, quantas vezes para mim surpreendentes, o ritmo dos quatro intervenientes e da moderadora, a cordialidade das discordâncias – sobretudo, a inteligência e a clareza com que debatem, tudo me conforta o desejo de rádio, a vontade de ficar a ouvir e a atenção. Obrigada, radialistas. Muito obrigada.

Ana Isabel Soares é professora

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Foto: Vasco Célio