Há textos que se leem e acabam ali. E há outros que nos acompanham durante horas, talvez dias. Um dos Postais do Dia de Luís Osório foi um desses textos. Não porque diga algo que nunca tenhamos ouvido, mas porque nos obriga a olhar para uma verdade que passamos a vida a empurrar para amanhã.
Há acontecimentos nas nossas vidas que nos fazem parar e perceber uma realidade inevitável: chega um dia em que já não há margem para adiar. Já não será possível fazer aquela visita. Telefonar. Arriscar. Dizer o que ficou preso na garganta. Enfrentar a conversa que fomos evitando. Pedir desculpa. Agradecer. Dar um abraço. Ou simplesmente fechar uma porta que continua entreaberta há demasiado tempo. Podem chamar-lhe um lugar-comum. Um discurso de autoajuda. Uma frase feita. Chamem-lhe o que quiserem.
A verdade é que quase todos carregamos um peso silencioso feito de palavras por dizer, gestos por fazer e decisões que fomos adiando porque parecia haver sempre um amanhã. Mas a vida nunca assinou esse compromisso connosco.
Ela acelera sem pedir licença. Num instante tudo parece igual ao dia anterior e, no seguinte, uma notícia, uma perda, uma doença ou um simples acaso mudam tudo. Nunca sabemos o que está escrito nesse livro invisível onde o futuro vai sendo desenhado. E quando esse dia chega, já não nos lembramos das discussões que vencemos, nem do orgulho que conseguimos defender. Lembramo-nos daquilo que deixámos por viver.
Do abraço que não demos.
Da conversa que nunca aconteceu.
Do pedido de desculpas que ficou por fazer.
Da gratidão que nunca expressámos.
Da coragem que nos faltou.
Do projeto que continuou apenas a viver na nossa imaginação.
E é aqui que entra um dos maiores inimigos da felicidade: o orgulho.
O orgulho que nos prende. Que nos convence de que o outro é que tem de dar o primeiro passo. Que nos faz acreditar que pedir desculpa é perder, quando, na verdade, tantas vezes é a única forma de salvar uma amizade, uma relação familiar ou simplesmente a paz dentro de nós. No fim, raramente nos arrependemos de termos sido humildes. Arrependemo-nos, isso sim, das vezes em que o orgulho falou mais alto do que o coração.
Vivemos também numa época em que escrevemos mais do que conversamos. Enviamos mensagens atrás de mensagens, esquecendo-nos de que as palavras escritas nem sempre transportam aquilo que sentimos. Falta-lhes o olhar, a expressão, o silêncio, o abraço. Falta-lhes humanidade. Quantos mal-entendidos nasceram de uma frase lida com o tom errado? Quantas relações se desgastaram porque ninguém teve a coragem de desligar o telemóvel, marcar um encontro e dizer, frente a frente: “É isto que realmente me vai na alma”. Às vezes é preciso fazer um reset. Deixar o smartphone de lado. Voltar ao princípio.
Olhar nos olhos.
Escutar sem interromper.
Falar sem máscaras.
Porque é aí que muitas feridas começam verdadeiramente a cicatrizar.
É impressionante a quantidade de vezes que não arriscamos. Guardamos sentimentos, adiamos decisões, convencemo-nos de que amanhã será mais oportuno, que na próxima semana haverá tempo, que um dia resolveremos aquilo que hoje evitamos. Acontece a todos.
Mas este texto pretende ser muito mais do que uma reflexão bonita. É um alerta. Um daqueles alertas que nos abanam sem levantar a voz. Um lembrete de que a vida nunca desacelera para esperar que estejamos preparados. Por isso, se há alguém a quem queres telefonar, telefona.
Se tens um abraço por dar, dá-o.
Se tens de agradecer, agradece.
Se tens de pedir perdão, pede.
Se tens de perdoar, perdoa.
E se houver pessoas que apenas te roubam a paz, que te diminuem, que te impedem de crescer, talvez também seja tempo de fechar essa porta e seguir caminho. Abre a janela. Deixa a luz entrar. E vai viver antes que a vida decida seguir sem ti. Porque um dia será tarde. E a verdade é que hoje... hoje já não é assim tão cedo.
Júlio Ferreira é um inconformado encartado
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