Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!
Mário Quintana
Era um silêncio tão denso que tudo pesava à volta. Não começamos pelo silêncio; na verdade, começamos pela palavra. Pelo sentido das palavras e pela sua materialidade, quando plasmada na tela, no papel, quando transformada em imagem, ou no seu enquadramento. Tudo começou com um convite para a curadoria de uma outra exposição. O Ricardo Cruzes falava da sua paixão por derrocadas, quase uma obsessão. Para ele, a derrocada não é um fim em si mesma, é o começo. E voltamos ao começo, em que falamos de derrocadas, de movimento em direção a alguma coisa que se recria, que se recompõe. Falamos de 1755. Eram 9h40 da manhã do dia 1 de novembro, Dia de Todos os Santos. O terremoto, que atingiu entre 8,5 e 9 na escala de Richter, durou apenas nove minutos e mudou para sempre a história do país. Mudou também a história da ex-colónia que, por momentos, se transformou na capital do império. Aqui, traçaram-se ruas como tabuleiros de xadrez; lá, desembarcaram pintores franceses. Um pouco mais tarde o mundo cingiu-se a dois movimentos descontínuos, mas semelhantes: o neoclassicismo e o romantismo, que disputavam o território do simbólico, o espaço da arte.
Eu disse que o sublime definia a nossa relação com o abismo, admirar-se ou atirar-se na natureza que se desmanchava muito além do horizonte limitado das linhas perfeitas. O sublime é o lugar em que tudo se inclina e se movimenta. O tempo é o mais-que-perfeito. A nostalgia não é a sensação de perda de algo que já não está: torna-se o sentimento dominante, é um eterno retorno, uma simulação, um vir-a-ser. O Marquês de Pombal queria um ensino laico — há que cuidar dos vivos, disse ele quando o terremoto acumulou incontáveis mortos sob os escombros do país. Criou o «imposto sobre o vício» ou o «subsídio literário» — pagava-se mais pelos bens supérfluos, como o álcool, o vinagre e a carne de talho, para que sobrevivessem as escolas sem jesuítas. A retórica era a disciplina por excelência. O novo mundo precisava de um novo discurso, de uma nova organização simbólica; precisava de pessoas que dominassem as palavras, que as transformassem em sentidos. E aqui voltamos ao começo, onde encontramos as palavras escritas com letra quase infantil. Palavras que se tornaram pinturas, que se embrenharam nas pinturas, que se espalharam. Ricardo Cruzes voltou-se sobre a pintura, sobre a materialidade dos suportes, sobre a frescura da tinta a óleo. A tinta escorrega e o artista deixa que ela se solte, que ela crie pernas.
Esta exposição é o resultado de muitas conversas, de imagens que surgiram de palavras e de palavras que surgiram de imagens, da mistura de tudo em objetos de parede. No princípio, estava o verbo. Ou não. No princípio, estava a imagem, não o verbo. A ideia era fazer um vídeo a simular uma derrocada. Mas, no final, disseste: “Vamos inclinar tudo”. E então saltamos.
Inaugura no dia 11 de julho, às 18h, na 289, em Faro
Foto: Isa Mestre
Mirian Tavares é professora
Crónica publicada em:
Foto: Isa Mestre
