Houve um tempo em que telefonar exigia alguma elasticidade e, por vezes, verdadeiros exercícios de contorcionismo.

Com o telefone preso à parede, quando o diálogo se prolongava, tinha início o espetáculo. Mudávamos de posição na cadeira. Sentávamo-nos no chão. Encostávamo-nos à parede. Cruzávamos as pernas, descruzávamo-las. Enrolávamos o fio no dedo, depois no tornozelo, desenrolávamo-lo e voltávamos a enrolá-lo. E, se era preciso deitar mão a alguma coisa, sem perder uma pitada da conversa, o fio nunca tinha o comprimento necessário. Esticávamo-nos mais do que o Homem Elástico, num exercício de alongamento digno de um número de circo ou de uma sádica tortura medieval.

Entretanto, inventaram o telemóvel e prometeram-nos liberdade. Passámos a poder telefonar em todo o lado, a toda a hora. Ao menos, há quem possa. Não eu. Não na minha casa. Por cá, a realidade é outra.

Depois de um vislumbre de modernidade, o regresso ao passado. Fazer ou receber chamadas no telemóvel implica estar num de dois lugares: numa cadeira encostada à janela do escritório ou aos pés da cama, no lado direito, mesmo ao cantinho.

Na cadeira, a posição é rigorosamente estudada. Ao milímetro. Costas bem direitas, queixo erguido, olhos postos no candeeiro de parede. Não deslizar mais de dois centímetros para trás ou para a frente. Nem pensar em cruzar as pernas ou abanar a cabeça. Ao mais pequeno movimento, o som desaparece e a chamada cai. Foi-se!

Na cama, o cenário é semelhante. As chamadas pessoais lá se vão aguentando, desde que me mantenha sentada nas coordenadas certas. Mas as coisas animam-se quando é preciso esclarecer um assunto com a seguradora, com o banco ou com um colega de trabalho: segurar papéis, equilibrar o computador no joelho, confrontar páginas e, ao mesmo tempo, manter o telemóvel no único centímetro quadrado onde há rede. Um malabarismo digno dos melhores circos: palhaços, mágicos, trapezistas e eu, ao telefone.

É curioso como passei anos a acreditar que o telefone de fio era o expoente máximo da limitação. Chamavam-lhe rede fixa, mas quem estava preso era apenas o aparelho. Eu circulava pela casa, limitada pelo comprimento do cabo, mas circulava. Hoje tenho rede móvel e fixa fiquei eu.

Aliás, mais fixa do que eu, só a resposta da operadora. Há quatro anos que reclamo e há quatro anos que me respondem exatamente o mesmo:

“Dentro de três meses, ficará resolvido”.

Sílvia Quinteiro é professora

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