Cette logique de la hantise ne serait pas seulement plus ample et plus puissante qu’une ontologie ou qu’une pensée de l’être [...]. Elle abriterait en elle, mais comme des lieux circonscrits ou des effets particuliers, l’eschatologie et la téléologie mêmes. Elle les comprendrait, mais incompréhensiblement.
Jacques Derrida

A primeira vez em que entrei no atelier do artista, vi-me cercada por montanhas de obras que se espalhavam pelas estantes, encostadas nas paredes, empilhadas ou esquecidas no fundo de um conjunto mais recente de desenhos que ele mostrava com o entusiasmo de uma primeira vez. Parecia que, ao rever e ao mostrar-me o que tinha meio ocultado, revivia o momento mesmo da criação.

O que sempre marcou a obra, e a vida, de Manuel Baptista foi o seu entusiasmo. A palavra, que nos chega através do latim, tem um sentido grandioso no grego, língua que a concebeu: é a marca de alguém que possui «um deus dentro de si». Um deus que não é, no caso do artista, um ente religioso, mas que atua como uma espécie de possessão. Esse «deus interno» é o espectro da alteridade que dita a obra, tornando o processo criativo num transe onde o artista descobre o que quer dizer apenas à medida que o fantasma o diz através dele.

Manuel Baptista acolhia, com entusiasmo, os seus fantasmas: memórias, fantasias, arquivos que guardava mesmo quando já não lhes eram úteis. No seu atelier era possível vislumbrar quase-desenhos, obras incompletas que permaneciam no seu vir-a-ser. Como se tudo nascesse do mesmo traço — o traço fundacional da memória do artista —, da sua teimosia em voltar, vezes sem conta, à infância, entre os brinquedos que colecionou, entre as obras de outros artistas que também o marcaram e que passaram a fazer parte da sua fantasmática: a rede de sentidos que se forma a partir daquilo que nos assombra (a hantologia ou espectralidade para Derrida). Assombrar-se não é o mesmo que sentir medo; é, no caso particular do artista, o estar permanentemente num estado de descoberta, porque não conhece tudo aquilo que brota das suas mãos. A obra é, para ele, um encontro. O filósofo francês diz que o sujeito nunca é plenamente senhor de si mesmo, estamos sempre habitados pelo outro. O artista «entusiasmado» não está cheio de um deus estático, mas sim assombrado por vozes, tradições e fantasmas que falam através dele. Ao converterem-se em linguagem, os espectros guiam o artista nesta criação por (des)possessão. A obra, então, contamina quem a vê e recusa o fim: os desenhos continuam a traçar o seu caminho, sobrevivendo à própria ausência de quem os criou.

Esta exposição é uma espécie de tributo ao entusiasmo do artista, à sua hospitalidade: acolheu-nos entre os seus desenhos e acolheu também os seus próprios fantasmas, convertidos numa linguagem singular. Os desenhos escolhidos, entre tantos que poderiam também habitar este espaço, são os que repousavam mesmo no fundo da pilha. Não encontramos evidência de que tenham sido expostos antes, mas sabemos o quanto significaram para Manuel Baptista, pois estavam perfeitamente alinhados e emoldurados. O artista mantinha cadernos de notas, desenhos, riscos, ideias e fantasmas. As suas obsessões eram registadas e transformavam-se, por vezes, em criações autónomas; outras, integraram obras que marcaram o seu longo percurso. Os seus arquivos não desapareceram, transformaram-se. Para Derrida, a relação com o fantasma exige hospitalidade, ou seja, a capacidade de acolher o que é radicalmente diferente de nós. O entusiasmo é a forma máxima dessa hospitalidade, pois o artista transforma-se num médium, num arquivo vivo. Torna-se um criador de sentidos cuja obra nasce de espectros que o habitam e que ele converte em desenhos, pinturas e esculturas. Em imagens.

Entre os desenhos, que datam da década de 60, escolhemos ainda uma escultura que não estava no seu atelier. Nem caberia naquele espaço tomado por imagens que não paravam de nascer das mãos de Manuel Baptista. A cada nova visita, dava-nos a ver novas obras, porque o seu entusiasmo não o deixava parar. Os «novelos» de grande dimensão, guardados nos seus cadernos desde os anos 60 como desenhos e rememorações da sua infância no Algarve, só saíram do papel em 2011, na exposição «Fora de Escala», que decorreu no Museu da Eletricidade/Fundação EDP (com curadoria de João Pinharanda). Esses novelos, que são na verdade desenhos escultóricos, assombraram o artista por mais de 40 anos antes de se converterem na manifestação física do seu desejo. A obra tornou-se concreta, mantendo o seu sentido inicial: os novelos, sobretudo os de corda, fazem parte do imaginário, da fantasmática do artista.

O novelo, na exposição, dá-nos a ideia de uma tessitura que existe apenas no nosso desejo de ligar, e de dar sentido, a uma obra imensa e imensurável. Cada visita ao seu espólio é um momento de assombro. As obras escolhidas — desenhos em papel e a escultura — fazem parte daquilo que constituiu o próprio artista: daquilo que lhe escapou, daquilo que só se materializou muitas décadas depois, daquilo que fez dele o artista que me mostrou, com entusiasmo, o seu atelier.

A exposição inaugura dia 30 de julho e fica até 30 de setembro, na Galeria Trem

Mirian Tavares é professora

Crónica publicada em:

Foto: Isa Mestre