Sempre que surge uma tecnologia transformadora, o medo chega primeiro do que os factos. Aconteceu com a máquina a vapor, com a eletricidade, com a internet e está a acontecer agora com a inteligência artificial.

O discurso dominante fala em substituição, em milhões de postos de trabalho em risco, em profissões condenadas ao desaparecimento. Mas a história ensina-nos outra coisa, cada revolução tecnológica destruiu tarefas, sim, mas criou empregos que ninguém conseguia sequer imaginar. Há vinte anos, não existiam gestores de redes sociais, especialistas em cibersegurança ou criadores de conteúdos digitais. A inteligência artificial não será exceção. Mais do que uma ameaça, é uma oportunidade — para quem estiver disposto a aprender, a adaptar-se e a trabalhar lado a lado com as máquinas, em vez de contra elas.

No passado mês de junho, tive a oportunidade de assistir, na conferência VivaTech Paris, a uma apresentação de Jeff Bezos, fundador da Amazon e uma das pessoas mais ricas do mundo. Em conversa com David Limp, Bezos partilhou uma visão otimista sobre o impacto da inteligência artificial no mercado de trabalho. "Sei que há muita preocupação por parte de muitas pessoas, incluindo pessoas muito inteligentes, de que a IA tornará os seres humanos desnecessários", afirmou.

Concordo com a visão de Jeff Bezos. Acredito que a inteligência artificial vai libertar as pessoas das tarefas repetitivas e permitir que se concentrem naquilo que é verdadeiramente humano: a criatividade, a invenção, a resolução de problemas complexos. Não se trata de substituir o trabalho, mas de o transformar — tal como aconteceu em todas as revoluções anteriores.

Os números comprovam-no. O Fórum Económico Mundial estima que, embora a automação venha a eliminar milhões de postos de trabalho na próxima década, criará ainda mais, sobretudo em áreas como a análise de dados, o desenvolvimento de inteligência artificial, a sustentabilidade e a saúde digital. O saldo, garantem os especialistas, será positivo. O verdadeiro desafio não está na falta de emprego, mas na falta de competências para ocupar os empregos que estão a nascer.

É aqui que reside o fator verdadeiramente decisivo: a transição não será automática nem indolor. Exige investimento em formação, requalificação e literacia digital e exige que empresas, governos e instituições de ensino assumam a sua parte da responsabilidade. Quem trabalha diariamente com pequenas e médias empresas, como é o meu caso, vê esta realidade no terreno: a diferença entre as empresas que prosperam e as que ficam para trás não está na dimensão nem no orçamento, mas na disposição para experimentar, aprender e integrar estas ferramentas nos seus processos.

A inteligência artificial já não é uma promessa distante reservada às grandes tecnológicas de Silicon Valley. Está ao alcance de qualquer negócio, do comércio local à indústria, do turismo aos serviços. Um pequeno restaurante pode usá-la para gerir reservas e responder a clientes. Uma oficina pode otimizar orçamentos e stocks. Um escritório de advogados pode acelerar a pesquisa e a redação de documentos. Em todos estes casos, a tecnologia não substitui as pessoas, multiplica o valor do seu trabalho.

O futuro do trabalho não será uma batalha entre humanos e máquinas. Será uma parceria, como em todas as parcerias, o sucesso dependerá de quem estiver disposto a investir nela. O medo é compreensível, mas é mau conselheiro. A história já nos mostrou o caminho, as sociedades que abraçaram a mudança tecnológica saíram sempre mais fortes do outro lado. Cabe-nos agora decidir de que lado da história queremos estar.

Fábio Jesuíno é empresário

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