Acompanhar a satisfação dos meu colegas professores quando atingem a idade da reforma é algo que me continua a dar um enorme prazer. Saber que saem pelo seu próprio pé, com a sensação do dever cumprido e com a expetativa de poderem, finalmente, terem o tempo que o trabalho lhes roubou, é algo que me leva a desejar-lhes, invariavelmente, “Bom renascimento!”. Sei que quando com eles quiser estar, será em qualquer lugar, mas fora do seu antigo local de trabalho. O seu semblante será, por certo, bem menos carregado e preocupado e as estórias partilhadas bem mais leves e harmoniosas. Assim tem sido até hoje, em ocasiões onde a amizade e o respeito se perpetuam!
Ao longo de mais de quatro décadas, habituei-me - mal - a assistir à saída por aposentação dos meus colegas mais velhos sem que ninguém das respetivas direções escolares deles se despedissem com o reconhecimento, o agradecimento e a homenagem devidas. Confesso que tal atitude sempre me causou alguma impressão e até indignação! De tal forma, que se generalizou entre os meus pares o comentário “Não vale a pena fazeres da escola a tua casa, pois ninguém te vai agradecer quando chegar a hora de a deixares!”.
É um facto, não existe o hábito de agradecer e homenagear porque a cultura escolar portuguesa sempre valorizou mais a função do professor do que a pessoa do professor, e porque as estruturas educativas foram, historicamente, organizadas para a continuidade administrativa, não para a celebração individual. A isto juntam‑se fatores como a burocracia, a falta de tradição comunitária nas escolas e a ausência de políticas públicas que incentivem esse reconhecimento.
A escola portuguesa sempre foi marcada por uma cultura de dever, discrição e serviço público, onde a modéstia profissional e a narrativa dominante «o aluno no centro», continuam a imperar. Ao contrário de outros países, Portugal não tem programas públicos de reconhecimento da carreira docente e as direções escolares estão mais sobrecarregadas com a gestão administrativa do que com a cultura organizacional, existindo uma elevada rotatividade de direções, o que dificulta a criação de tradições internas de homenagem e reconhecimento.
Em escolas grandes e impessoais, torna-se difícil criar uma cultura de comunidade, faltando tempo e recursos para homenagens que exigem organização, logística e orçamento. Naturalmente, havendo ausência de tradição não se criará expetativa nem continuidade. A somar a todas as razões apontadas, saliento a desvalorização pública da carreira docente - a sociedade portuguesa tende a ver o professor como um «funcionário», não como um «mentor».
Apesar de raras, quando acontecem, as homenagens aos professores são profundamente marcantes. E não é preciso muito, basta a organização de pequenos eventos internos, os discursos dos colegas, a entrega de lembranças simbólicas, a projeção de vídeos com memórias da carreira, a criação de livros de testemunhos de alunos e a participação espontânea de agentes educativos. Porém, infelizmente, estas práticas dependem quase sempre da iniciativa individual dos colegas, não de políticas estruturadas.
Tal como noutros países de outros continentes, onde a reforma/aposentação e a entrada para a chamada «terceira idade» é vista como um sinal de deferência, de respeito, de agradecimento e de aprendizagem, é necessário que em Portugal se comecem a valorizar - novamente - todos aqueles que nos ensinaram e estimularam a ser. Para que tal aconteça, é necessário que se operem mudanças culturais, institucionais e políticas. Porque já bastam décadas de palavras ocas de sentido e vãs no propósito!
Homenagear e premiar os trabalhadores na sua reforma é mais do que um gesto simbólico, é uma prática organizacional que reforça a cultura, a dignidade e a memória coletiva. A essência está em reconhecer publicamente aquilo que muitas vezes foi feito silenciosamente ao longo de décadas: o compromisso, a lealdade, a competência e o impacto humano. Seja qual for a área profissional, todos merecemos esse reconhecimento!
Paulo Cunha é professor
Crónica publicada em:
Foto: Daniel Santos
