Quem conhece Minas Gerais sabe que, por lá, qualquer coisa pode ser um “trem”. Come-se um trem, bebe-se um trem, ouve-se um trem. Em caso de susto, pode-se inclusive ter um trem no coração… Trem serve para quase tudo. Mas se há trem verdadeiramente mineiro, é a simpatia.

A fama do calor das gentes precede qualquer visita e foi por isso, sem espanto, que ali fui recebida de braços abertos. Os meus anfitriões proporcionaram-me dias e experiências inesquecíveis.

Começámos por Belo Horizonte: pela agitada Savassi, pelo Mercado fervilhante e pela ondulante Pampulha, onde as curvas modernistas de Niemeyer traduzem a sensualidade da mulher brasileira. 

Depois, a Rosiana Cordisburgo, seguida da histórica e longa Estrada Real. O sertão. Um horizonte imenso. Ouro Preto, Mariana, Sabará, Tiradentes, Diamantina. O legado português feito presente em cada pedra do chão, em cada edifício, nos cartazes que anunciam um festival de fado, nos tapetes de Arraiolos bordados localmente e vendidos como recordação local.

Já a ida ao Museu de Inhotim revelou-se uma experiência completamente diferente. Um museu ao ar livre com dimensão de cidade. À primeira vista, lembra uma espécie de parque jurássico da arte contemporânea. Por entre plantas gigantescas, as obras espalham-se como criaturas monumentais a habitar a paisagem. Algumas parecem ter caído do céu. Beam Drop, de Chris Burden, caiu mesmo.


A amiga que me guiava sugeriu-me começar pela galeria de Lygia Pape. Entrámos numa instalação escura, atravessada por fios metálicos dourados e iluminados. Saí fascinada.

Depois, o pavilhão de Adriana Varejão. Os painéis azuis e brancos, evocação dos azulejos portugueses. A pegada e o desenho de um sol feito pela filha da artista. Mãe e filha a brincar às escondidas. O doméstico transformado em detalhe secreto de uma obra de arte.

Mais adiante, o Cosmococa e, de longe, a maior fila do museu. As seriemas, pousadas sobre a instalação, pareciam divertir-se com o espetáculo. Perguntei-me se riam de quem ali esperava com tanto para ver à volta, ou se aquele seria o resultado da experiência sensorial prometida aos visitantes.

Sem querer perder tempo, prosseguimos e fomos conhecer a galeria de Carlos Garaicoa, anunciada como uma das mais extraordinárias do museu.

À entrada, encontrámos uma rapariga sentada a ler um volumoso romance da moda.

Esperávamos um “boa tarde”, um “bem-vindos”, qualquer coisa. Mas não. Sem sequer pousar

o livro ou marcar a página, olhou para nós e disse:

— Se tocarem nas velas, são expulsos.

Ameaçados, avançámos quase em bicos de pés, receosos de que a nossa respiração pudesse perturbar as peças A mostra valia realmente a pena, mas aquela receção deixara no ar uma estranha sensação e pouca vontade de prolongar a permanência.

À saída, outra porta, a mesma rapariga. Continuava mergulhada no livro, agora indiferente aos

visitantes. Nem uma revista às mochilas. Um vai e não voltes. Nada.

Caminhámos alguns metros em silêncio, até que o meu companheiro de experiência português

abrandou, olhou e voltou para trás.

Parou ao lado da jovem, inclinou-se ligeiramente para ela e disse, com a maior serenidade do

mundo:

— No final, ele é decapitado.

A rapariga ergueu o rosto, chocada. Foi pior que tocar nas velas. Estava incrédula.

Ele regressou para junto de nós, tranquilo e sorridente.

— Que trem foi esse, aí? — perguntou a amiga que nos convidara.

— Intercâmbio cultural — respondeu, triunfante.

Sílvia Quinteiro é professora

Crónica publicada em: