A homenagem a José Mendes Bota, realizada na passada segunda-feira, 13 de julho, na Assembleia Distrital do PSD, com a aprovação da atribuição do título de Presidente Honorário do PSD/Algarve, serve de mote ao presente artigo.
Em todas as forças partidárias existem políticos que, pela sua forma de ser e de estar, se notabilizam muito além do contexto da militância ou do exercício de cargos públicos, sejam eles eletivos ou de nomeação.
São os verdadeiros líderes. Aqueles que acrescentam e que, muitas vezes, são decisivos nos atos eleitorais. Não vivem na dependência de uma sigla partidária, nem se encostam aos líderes para garantirem posições. Pelo contrário, criam e formam líderes locais, distritais e nacionais. Estes líderes são raros como diamantes. Por isso, quando surgem, são respeitados pelos seus pares e pelos seus adversários.
José Mendes Bota é um dos poucos verdadeiros líderes políticos algarvios. É-o no PSD e sê-lo-ia em qualquer outro partido político em que militasse.
Nascido em Loulé, a 4 de agosto de 1955, Mendes Bota é licenciado em Economia e pós-graduado em Gestão Avançada, tendo também frequentado a licenciatura em Direito.
Homem multifacetado, é político, gestor e empresário, tendo-se dedicado, ao longo da vida, a numerosas atividades culturais, desportivas e associativas, nomeadamente ao escutismo, à música, ao teatro, à poesia, à rádio, ao jornalismo, ao atletismo, ao andebol e ao ciclismo. Chegou, aliás, a presidir à Associação de Ciclismo do Algarve.
No plano político, foi presidente da Câmara Municipal de Loulé e da Assembleia Municipal do mesmo concelho, tendo sido cofundador da Associação Nacional de Municípios Portugueses. Parlamentar brilhante, dotado de uma capacidade de improviso retórico dificilmente comparável, foi deputado à Assembleia da República durante oito legislaturas e eurodeputado durante dois mandatos. Integrou a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa durante 11 anos e a Assembleia Interparlamentar Europeia de Segurança e Defesa durante oito anos; foi diplomata da União Europeia junto do Conselho da Europa e depois junto da Santa Sé. Em 2019, integrou a delegação da União Europeia junto das organizações das Nações Unidas sedeadas em Roma, como a FAO, bem como junto da Santa Sé, de São Marinho e da Ordem de Malta.
Poderia ter exercido todos estes cargos na sombra, a fazer número, a servir de porta-voz do pensamento de terceiros, mas não, por onde passou deixou a sua marca pessoal, tomando iniciativas legislativas e a liderança de movimentos sociais, marcando de forma indelével o desenvolvimento da sociedade contemporânea, colocando na agenda mediática a luta contra a violência doméstica e a proteção dos direitos das mulheres, tendo contribuído internacionalmente para a aprovação e ratificação da Convenção de Istambul.
Foi das primeiras vozes que se levantaram na luta contra a corrupção e pela transparência na vida publica, sendo o Presidente da Assembleia Geral da Associação Transparência e Integridade.
Esta sua dimensão internacional, nunca o impediu de agir em defesa da sua região. Regionalista convicto, tem batalhado pela implementação da regionalização, muitas vezes contrariando as orientações do seu próprio partido, tendo sido o organizador do movimento regionalista «Regiões Sim!».
A qualidade do trabalho que desenvolveu nos planos local, regional, nacional e internacional valeu-lhe diversas distinções, que importa elencar por se enquadrarem plenamente num texto de reconhecimento: Prémio «Mensagem para a Europa» (1982); Medalha de Honra do Grupo do Partido Popular Europeu no Parlamento Europeu (1999); Medalha atribuída pela Assembleia Interparlamentar Europeia de Segurança e Defesa (2011); Medalha de Mérito Municipal — Grau Ouro, atribuída pela Câmara Municipal de Loulé (2013); Prémio Dignidade Humana — Escandinávia 2014; Medalha de Mérito da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (2015); Cavaleiro da Ordem de Mérito da Polónia (2015); Prémio Regional Maria Veleda (2017); e Comendador da Ordem do Mérito de Portugal (2023).
José Mendes Bota foi, muitas vezes, pioneiro: na defesa acérrima da regionalização; na prestação de contas aos eleitores, tendo publicado cinco livros com o resumo do trabalho realizado nos diversos cargos que exerceu, aos quais se juntam ensaios que refletem o seu pensamento político sobre temas europeus, nacionais e regionais; na poesia, enquanto político-poeta, editor e promotor de outros poetas da região; e nas crónicas publicadas na imprensa regional, através das quais lança para o debate público questões que, muitas vezes, as forças partidárias prefeririam ver esquecidas.
Apesar da sua notável carreira internacional, José Mendes Bota manteve sempre a residência no Algarve, ao qual regressava sempre que a sua agenda o permitia e onde permanece desde que terminou o seu último serviço público internacional. O seu amor ao Algarve e ao seu concelho natal é visível pela sua integração e intervenção social, mas, principalmente, nas iniciativas comunitárias em que se envolve, de que é exemplo o trabalho desenvolvido no Centro Comunitário do Barranco do Velho, que presta assistência diária aos idosos da Serra do Caldeirão, de que é Presidente da Assembleia Geral.
Vivemos num país que, por composição genética ou mau feitio, tem dificuldade em homenagear e reconhecer os vivos, remetendo-os, muitas vezes, para uma espécie de subcâmara do esquecimento. Por isso mesmo, a homenagem que recebeu do PSD/Algarve, além de justa e merecida, destaca-se por contrariar essa tendência tão portuguesa.
Enquanto algarvio, reconheço o esforço diário de Mendes Bota na defesa da nossa região comum, expresso nas propostas políticas que apresentou, nas reivindicações que formulou e nos alertas constantes que lançou — e que só a miopia de quem olha para o Algarve como a última colónia portuguesa pode ignorar.
A vida é uma luta constante, na política e fora dela.
Muita força para as batalhas que seja chamado a travar.
Nuno Campos Inácio é editor e escritor
Crónica publicada em:
Foto: Daniel Pina
