Aqui há atrasado, passei uns dias a veranear no Sul da Sardenha. Estava o ar quente como tem estado no Algarve este começo de estio, mas eu estava de férias-férias, coisa rara, em casa de família. Era uma casa de dois andares, em cima de uns penhascos a poucos metros do Mediterrâneo, para os lados de Porto Pino – topónimo que me fazia pensar na praia faialense de Porto Pim, e coincidia com o nome do nosso anfitrião. No andar térreo, ficavam os quartos mais frescos. No piso superior, a cozinha e o terraço, uma maravilha onde fazíamos as refeições, passávamos pelas brasas numas redes, no fresco do tramonto, para afugentar a brasa, ou ficávamos à noite a olhar para os arbustos e a gravilha da frente da casa, a ver se descortinávamos uma raposinha que por ali andava e comia os petiscos que lhe deixávamos a seguir ao jantar.

Diz Predrag Matvejevitch, em Epistolário Russo, que (sobretudo, conta, por razões ideológicas), estando “à beira do suicídio,” o Mediterrâneo o salvou. “Foi quando comecei a redigir o meu Breviário Mediterrânico” (p. 264). Escreveu a este mar interno uma espécie de oração. A meio da Europa, a separar o Oriente do Gharb europeu – das terras do sol ponente –, o Mediterrâneo foi-lhe salvífico. As ilhas, explica no breviário, “são lugares peculiares” com “estados de alma”, têm os ventos por divindades e habitantes muito especiais. Habitar uma ilha no meio do Mediterrâneo é como viver num cárcere. (Uma ilha é, em muito, uma prisão, também o explica Matvejevitch).

Passei vários dos meus dias sardos na rotina de um cárcere, mas onde internei com a melhor das vontades: sono pesado (velado pelo insistente cantar das cigarras), pequeno-almoço ligeiro e caminho sobre as rochas até à água, horas dentro do mar morno e transparente, mergulhando a ver no fundo a areia muito clara e, por cima dela, as silhuetas das solhas – e regresso à casa no instante em que o estômago desse sinal, para um aprazível pranzo. A seguir, vinha outro dos meus momentos preferidos: quase todas as almas se estiravam sobre as camas, dentro das redes, sentadas numa espreguiçadeira com o antebraço a amparar a queda da cabeça adormecida, tudo dormia – exceto o meu pai e eu. Escolhêramos levar connosco para as férias o mesmo livro, Jacques, o Fatalista: eu precisava de ler tudo o que encontrasse de Diderot; o meu pai quis acompanhar-me. Percebemos que estávamos em idêntica velocidade de leitura quando, ele no quarto onde dormia, eu no que me tinham atribuído, que era contíguo ao dele, fazíamos ouvir no meio do silêncio que só as cigarras da tarde animavam as mais sonoras gargalhadas, logo logo abafadas e seguidas de uma pergunta alegre, mal ouvida de um dos quartos para o outro: “Estás naquela parte assim e assim...?”. E outra risada, menos espontânea: “Estou”. Nas tardes daquele Verão, no meio de um mar sem ondas, ler não foi um ato solitário.

Ana Isabel Soares é professora

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Foto: Vasco Célio