A convite da Associação Rewilding Portugal participei recentemente num evento realizado em Sabugal para falar sobre Turismo de Natureza e em Birdwatching em particular. Tratou-se de uma iniciativa apoiada pelo Turismo de Portugal e o Município de Sabugal, cujo objectivo foi o de discutir o papel e o potencial deste turismo naquele território – Grande Vale do Côa – bem como as de outras actividades similares, como seja a fotografia ou a produção audio documental de vida selvagem. Durante alguns dias tive oportunidade de reencontrar amigos de projectos passados e de ver in loco o que esta associação está a fazer por aquela região, suas gentes e, claro, pela biodiversidade. O conceito de rewilding («renaturalização») está a ganhar força e adeptos em todo o mundo, existindo actualmente uma rede europeia que já reúne largas dezenas de parceiros em praticamente todos os países. Para os interessados e curiosos sobre este conceito, aqui vos deixo estas ligações: Home | Making Europe a Wilder Place ou Rewilding Portugal | Making Portugal a Wilder Place.
O que me faz escrever este artigo foi o que vi nesta minha visita àquela zona do país e o que, por comparação, assisto aqui no Algarve. E as realidades, lamentavelmente, não podiam ser mais distintas.
O movimento rewilding tem como uma das principais abordagens de acção, a aquisição de terrenos para renaturalizar e restabelecer equilíbrios ecológicos. Isso passa pela compra dos mesmos e, dependendo dos casos, por diferentes formas de intervenção, incluindo, por exemplo, pela reintrodução de grandes herbívoros. No caso da Rewilding Portugal estamos a falar de mais de 3 mil hectares que já são sua propriedade e nos quais desenvolvem vários projectos-piloto de regeneração, como fizeram com a introdução de tauros. Por outro lado, estabeleceram uma rede de parceria com mais de 70 agentes privados (guias de natureza, alojamentos, entre outros) no sentido de impulsionar economia verde, desenvolvimento local e criar condições de fixação, não apenas de natureza, mas de pessoas e, em particular, de jovens. Aliás, esta organização dispõe, inclusive, de edificações que funcionam como espaços de alojamento turístico, mas também para acolhimento de investigadores, parceiros ou até de funcionários.
Comparemos, a este nível, o Algarve. Comprar terrenos numa abordagem rewilding (ou outra qualquer) para criar reservas? Impossível. A especulação que se instalou firmemente na região torna praticamente inviável qualquer tentativa razoável de adquirir algum tipo de parcela rural ou florestal. Mesmo que abandonadas há décadas. Os últimos 30 anos foram hábeis em criar a ilusão do enriquecimento instantâneo e em alimentar uma ganância insaciável generalizada em toda a região – sim, até no interior – ao ponto de assistirmos hoje a preços de venda quase milionários. O mesmo se aplica à habitação. Aliás, às ruínas para habitação. Em Sabugal, por exemplo, é possível encontrar um T4 usado e em bom estado, à venda por menos de 100 mil euros. Esse preço por aqui nem permite adquirir uma ruína de uma pequena moradia em Tavilhão, na freguesia de Ameixial. O mesmo fenómeno aplica-se ao arrendamento de casas ou de quartos.
Resultado: no território do Grande Vale do Côa estão a fixar-se jovens qualificados, a criarem-se dinâmicas empresariais inovadoras e sustentáveis, a regenerarem-se paisagens e ciclos ecológicos, a atrair-se novamente espécies outrora localmente extintas, a recuperarem-se práticas ancestrais e vitais e, no fundo, está a alimentar-se uma esperança e uma expectativa positiva quanto ao futuro daquela região. Tudo o que, infelizmente, não temos por aqui. Ao fim de décadas de fundos comunitários e de muitos milhões de investimento, temos um interior mais abandonado, isolado e pobre. Não temos como fixar população, muito menos jovens. Não temos bancos de solos públicos (ou privados sequer) que funcionem como reservas estratégicas para a conservação da biodiversidade, dos solos ou da paisagem. Não temos esforços articulados para um objectivo comum. Não temos uma visão para estes territórios, menos ainda integrada, que permita vislumbrar um futuro a longo prazo para os mesmos. Não temos. Temos turismo, cada vez mais abrangente, diferenciador e menos sazonal, o que é de louvar. Mas não chega. É preciso mais. Mais gente a viver e a trabalhar no interior. Mais actividades ligadas ao espaço rural e florestal. Mais economia sustentável e de valor acrescentado. Mais conhecimento aplicado. Mais rede e mais parceria.
E para tudo isso é preciso mais interesse. Mais vontade. Mais ousadia e coragem. Mais capacidade. Mais estratégia efectiva. Mais persistência. Mais solidariedade. Mais e mais para que possamos perspectivar um futuro um pouco melhor e tornar a nossa realidade menos difícil.
João Ministro é empresário e engenheiro do ambiente
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