Agosto é mês de lazer e silly season, e o Algarve é um dos lugares mais procurados por quem deseja sair da rotina do resto do ano e respirar a maresia. Mas não serão estes clichés parte rotineira de um estereótipo? Um dos modos de lhes fugir passa por dirigir a atenção para a capital da região: pode parecer paradoxal, mas, em agosto, Faro tende a ser um destino menos agitado do que Albufeira, Lagos, Portimão ou outros pontos costeiros, como Vilamoura, Quarteira ou Carvoeiro: a entrada de turistas equilibra a saída de estudantes universitários, o que significa que o movimento nas ruas não se altera substantivamente (bem, altera-se um pouco, sim, há gente por todo o lado, os percursos turísticos não coincidem com os percursos dos estudantes); e a separação geográfica entre a cidade propriamente dita e a praia – que é, no fundo, o objetivo de grande parte dos veraneantes – atenua a agitação estival (sim, acredito que isto acontece). Faro é uma cidade calma, mesmo nos dias mais extremos do Verão, o que vale para a temperatura do ar. Mas, a par desta calma algarvia, a cidade mantém em agosto a dinâmica artística do resto do ano – e revela que a presença da vida universitária não se dilui durante a pausa das aulas. Há excelentes exposições a comprová-lo e sugiro que as visitem, sejam habitantes da cidade ou forasteiros que têm a sorte de nela passar por estes dias. O ritmo predispõe para a arte.
Na galeria Trem, acaba de ser inaugurada a mostra «Arquivos (in)visíveis», em que se exibem obras e se revê a memória de Manuel Baptista (1936-2023), patrono da bela galeria farense. A buganvília da entrada saúda quem chega e antecipa a sensação de reencontrar a mão do artista nos traços das folhas em que a tinta da China se deixou diluir para redesenhar formas - serão traços abstratos, ou a visão particular de objetos do seu quotidiano? Alguns pontos recordam os caroços de fruta, no vestígio de uma natureza morta. A solidez da escultura que se destaca das folhas emolduradas nas paredes fala ao visitante sobre esses dias, a força dos braços, a vontade de tornar mais presente um contorno, a mão. Edgar Massul, Pedro Cabral Santo e Mirian Tavares fizeram a curadoria e revelam uma amostra do que será o espólio agora à guarda do município. Os visitantes poderão conhecer melhor a produção de Baptista, e entender como se conjugam a arte por ele criada. A Licenciatura em Artes Visuais (Universidade do Algarve), o Centro de Investigação em Artes e Comunicação (CIAC) e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia associam-se ao Museu Municipal de Faro e à Galeria Municipal Trem – Manuel Baptista nesta mostra que estará aberta ao público até ao final de setembro.
Até 22 de agosto, outra exposição pode ser vista em Faro, na sede da associação 289, à Atalaia. Na verdade, duas exposições diferentes: numa, Rosa Guedes mostra uma das peças resultantes de textos autobiográficos produzidos durante 2025 no Mestrado em Processos de Criação (também da UAlg). Ocupa toda a sala de projetos da 289 («Project Room»), obrigando mesmo o visitante a dobrar-se, encolher-se e voltar a endireitar-se para acompanhar a presença da tela, dos fios, da cor que o corpo deixa através de tempos de trauma.
Na outra sala da 289, «Aula de Retórica: Amor e carne de talho» apresenta o resultado da colaboração entre um artista – Ricardo Cruzes – e uma professora de Artes, curadora e presença habitual na vida artística do Algarve, Mirian Tavares (uma das responsáveis, aliás, pela criação do curso de Artes Visuais na UAlg). O projeto alargado, que intitularam «Aula de Retórica», desdobra-se em três momentos distintos que, conforme explicam, “se reinventam a cada contexto” – este, que recebeu o subtítulo «Amor e Carne de Talho», dá o mote, o tiro de partida para uma reflexão artística de que o terremoto de 1755 é a marca inicial. “O que emerge da derrocada?”, perguntam. As respostas podem surgir nas palavras que Mirian Tavares inscreve nas telas preparadas por Ricardo Cruzes (as palavras são o barro que ela tão bem trabalha e domina), colhidas em livros que leu, textos que gerou e dialogam com a cor e a textura das pinceladas do artista. O convívio com a produção de artes visuais (e com a curadoria, atividade a que Tavares também se tem dedicado) faz nascer a vontade de cruzar expressões, marcar as obras com a verbalização do pensamento e a transposição de leituras. O que se agora vê na 289 permite perceber, por exemplo, como se constrói uma aula, e que a retórica é, afinal, construção. Uma derrocada faz tremer o pensamento, desalojar as ideias, desmoronar edifícios – e conduz aos atos reconstrutivos de que nasce a arte.
A galeria Trem-Manuel Baptista fica na Rua do Trem, n.º 5, em Faro, e está aberta de terça a sexta entre as 11h30 e as 18h, e aos sábados entre as 10h30 e as 17h.
A sede da 289 fica no n.º 1 da Rua Doutora Mariana Amelia Machado Santos, no Cercado da Atalaia, em Faro. Está aberta quintas e sextas-feiras das 15h às 19h e sábados das 10h às 14h
Ana Isabel Soares é professora
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Foto: Vasco Célio
