Chega uma altura na vida em que um homem tem de tomar decisões difíceis. Há quem deixe de beber, quem comece a correr maratonas, quem compre uma bicicleta de carbono ou quem descubra subitamente uma paixão por caminhadas ao nascer do sol. Eu fiz uma escolha diferente, igualmente radical e provavelmente mais sensata: decidi reformar-me dos casamentos. Não foi uma decisão impulsiva. Ninguém acorda numa manhã e anuncia: “Nunca mais entro numa igreja decorada com flores brancas e fitas de cetim”. Foi um processo lento, amadurecido ao longo de décadas de sofrimento social, litros de espumante e fatias de bolo de noiva com a densidade de um bloco de cimento armado.

Tenho um problema de base com as festas de casamento. Nunca percebi porque razão duas pessoas que decidiram viver juntas entendem que essa decisão exige a mobilização de cento e cinquenta testemunhas, três fotógrafos, um videógrafo, um DJ, uma violinista, uma mesa de doces e um cortejo automóvel capaz de paralisar meia freguesia. Quando alguém decide partilhar a vida com outra pessoa, a minha reação natural é desejar-lhe sorte. Não é vestir um fato em pleno agosto e conduzir atrás de um carro decorado com flores artificiais.

Ao longo dos anos apercebi-me de que os casamentos são como as bolas de ténis: quem vê um vê praticamente todos. Mudam os noivos, muda a quinta, muda a toalha da mesa e muda a música da entrada, mas o argumento permanece inalterado. É sempre o mesmo filme, apenas rodado em localizações diferentes e com atores novos. Foi por isso que desenvolvi uma check-list mental. É o meu mecanismo de sobrevivência. Enquanto os restantes convidados vivem a emoção do momento, eu vou assinalando silenciosamente as etapas obrigatórias da liturgia matrimonial.

A primeira é sempre o Freakshow da Igreja.

É impossível falhar. Em qualquer casamento existe uma concentração extraordinária de figuras humanas que parecem ter sido selecionadas por um comité internacional do mau gosto. Há o primo que recuperou o fato da tropa, a tia que confundiu a cerimónia com uma gala de casino em 1987, o senhor cujo sapato encerado consegue refletir a luz até Faro e a jovem que passa o trajeto do adro à igreja a lutar pela sobrevivência em saltos agulha sobre calçada portuguesa.

Depois vem o Sermão.

Aqui reside um dos maiores testes à resistência psicológica do convidado. O padre, mesmo quando começa com boas intenções, acaba invariavelmente por falar da crise da família, da instabilidade do mundo moderno, da falta de valores e da escassez de crentes praticantes abaixo da idade da reforma.

Quando finalmente chega o momento do Arroz, a violência do lançamento é diretamente proporcional à duração da homilia. Já vi noivos saírem da igreja com o olhar de quem atravessou uma tempestade de granizo.

Segue-se o Cortejo Automóvel, uma experiência que desafia as leis da física. Nunca percebi porque razão pessoas que têm um almoço marcado para as duas da tarde decidem percorrer dez quilómetros a vinte à hora. Há sempre um grupo que se perde, outro que ultrapassa indevidamente e um terceiro que chega quando os restantes já terminaram os aperitivos.

E então entramos no verdadeiro coração da festa: o Copo d’Água.

Os Petit Fours marcam o início da maratona etílica. É nesta fase que os convidados ainda falam baixo, elogiam a decoração e fingem reconhecer parentes dos noivos. Duas taças de espumante depois, já trocam confidências sobre divórcios, heranças e problemas de joelhos, hérnias e colesterol.

O momento do Bouquet merece estudo académico. Mulheres perfeitamente equilibradas transformam-se subitamente em atletas de alta competição. Há empurrões, fintas, bloqueios e movimentos que fariam inveja a um defesa-central em final de campeonato. Tudo isto por um ramo de flores que simboliza, aparentemente, a esperança de encontrar «a pessoa certa».

A Refeição Principal é menos interessante do ponto de vista antropológico. O fenómeno dominante é a velocidade. O vinho desaparece a uma taxa industrial e o ritual de bater com os talheres nos copos para obrigar os noivos a beijarem-se continua a ser uma das manifestações coletivas mais estranhas da cultura portuguesa.

Depois surge o Charuto.

Como antigo fumador, confesso que esta fase me diverte menos. Homens que nunca tocaram num charuto passam a segurá-lo com a solenidade de Winston Churchill. Alguns trincam-no, outros acendem-no ao contrário e há sempre um génio que lhe espeta um palito para o manter na boca sem esforço. A elegância obtida aproxima-se geralmente da de um urso a tentar tocar clarinete.

Mas o ponto alto absoluto é o Bailarico.

É aqui que a civilização colapsa. As gravatas desaparecem, os sapatos são abandonados debaixo das mesas, as saias sobem, os decotes descem e forma-se inevitavelmente o comboio humano de pessoas alcoolizadas que serpenteia pelo salão ao som de uma música que ninguém admitiria ouvir em estado sóbrio. Já testemunhei quedas espetaculares, discussões conjugais, declarações de amor a pessoas erradas e coreografias que deveriam ser proibidas pela Convenção de Genebra.

Finalmente chega o Cortar do Bolo, o equivalente matrimonial ao genérico final de um filme demasiado longo. Os noivos aproximam-se da espada cerimonial, as faíscas acendem-se, os fotógrafos entram em transe e metade dos convidados começa discretamente a procurar as chaves do carro. Eu sou sempre dos primeiros. Antes da segunda dentada naquela fatia gigantesca e misteriosamente insípida, já estou emocionalmente no estacionamento e fisicamente a caminho de casa. Dizem-me muitas vezes: “Mas vais perder a festa!”. Perder? Meu Deus, eu não perdi a festa. Eu vi-a. Repetidamente. Tantas vezes que consigo prever o próximo passo com a precisão de um meteorologista em dia de céu limpo.

Por isso decidi retirar-me com dignidade. Não guardo ressentimento dos noivos. Desejo-lhes sinceramente toda a felicidade do mundo, muitos anos de amor, paciência, cumplicidade e saúde. Apenas peço uma coisa: não me convidem para assistir outra vez ao mesmo filme, porque já sabemos como acaba. E, entre nós, as festas de divórcio costumam ter uma vantagem decisiva: há menos flores, menos discursos e muito mais gente genuinamente feliz.

Júlio Ferreira é um inconformado encartado

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