A preguiça é a mãe do progresso.
Se o homem não tivesse preguiça de caminhar, não teria inventado a roda.
Mário Quintana

Estou de férias desde o dia 3, segunda-feira. Já deixei avisos nas minhas caixas de correio, mas há muita gente que decide ignorá-los e continua a importunar-me com assuntos de trabalho. As pessoas pensam que estamos ligados à corrente 24 horas por dia, todos os dias do ano. O facto de estarmos conectados dá a sensação de disponibilidade permanente. Parece que é um pecado, pura e simplesmente, «fechar a loja» e aproveitar o dolce far niente, que, no meu caso, é uma rede na varanda e muitos livros policiais.

Trabalho muito durante todo o ano, mas há algum tempo decidi não ler e-mails ao fim de semana, nem depois de horas decentes. O WhatsApp e o seu uso desenfreado são também responsáveis pela falsa ideia de intimidade. Há quem ache que pode enviar uma mensagem de trabalho num domingo, às 20h. Devia haver uma punição para quem ultrapassa o limite do bom senso. A minha punição é ignorar solenemente as criaturas que se atrevem a perturbar o sossego merecido e desejado de uma pessoa.

Fico a perguntar-me: quem é você, na fila do pão, para me mandar uma mensagem num fim de semana? Só respondo aos meus afetos.

Fico impressionada quando vejo colegas que, mal encontram uma ligação Wi-Fi, se conectam imediatamente. Agora até no sacrossanto espaço do avião é possível conectar-se. Eu prefiro ficar offline. Muitas vezes apetece-me ficar offline por muito tempo. Se não posso durante o período de trabalho, dou-me ao luxo de me desligar nas férias.

Como cantava Rita Lee, quero mais é saúde e, num mundo violentamente ligado, desligar-se é uma bênção, uma necessidade, um gesto de autocuidado.

Aviso aos navegantes: com raríssimas exceções, só volto ao trabalho quando voltar ao trabalho. Até lá, podem esquecer-me. Os meus neurónios já estão desligados e nem o ChatGPT pode ajudar-me a escrever um e-mail que tenha pés e cabeça.

Entrei nas segundas-férias e só volto quando as férias terminarem. Até lá, desfrutem também do vosso verão.

Mirian Tavares é professora

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Foto: Isa Mestre