A chegada do mês de Agosto é, para muitos, o momento de desligar, parar e descansar. É o tempo das férias e quando muitos portugueses ocorrem, como que numa migração, ao Sul. A actividade política arrefece e pouco se passa. Há como que um entendimento nacional para que nada de especial ocorra neste período. Na verdade, muito se passa, mas tendemos a não querer pensar muito nisso. O subterfúgio do «deixar para depois» ganha aqui uma forte e assumida assumpção.

Os fogos florestais, esses malditos fenómenos destrutivos, estão neste mês activos – ou bastante ativos – o que tem causado transtornos vários nos últimos anos aos nossos governantes em pleno momento de férias. O que temos visto este ano por cá e especialmente lá fora, é de uma extrema gravidade, com enormes prejuízos materiais, naturais e mesmo humanos. A gestão do território – e da floresta em particular –, já de si bastante lenta e difícil, está a ser posta em causa por uma nova realidade imposta pelas alterações climáticas e do que daí advirá. Há todo um modus operandi que tem de ser reequacionado e rapidamente. Não é possível continuar com um território em que mais de metade ainda não está cadastrado. Ou ainda que mais de 30 por cento está «preso» em heranças indivisas, muitos deles em nome de pessoas já falecidas. Também não é possível continuar a focar a estratégia nas operações de combate ao fogo e deixar a prevenção e a gestão em segundo plano.

Como dizia há dias uma Comissária Europeia, é preciso prepararmo-nos para os riscos antes de os desastres acontecerem. E isso requer, cada vez mais, ousadia, investimento e empenho pela gestão integrada e eficiente do território rural e florestal, procurando contrariar o abandono, despovoamento ou desinvestimento nos mesmos. Algo que já andamos a falar há décadas.

Mas neste mês acontecem também outras coisas curiosas, no mínimo. Segundo dados da Agência Portuguesa do Ambiente, é quando se atinge o máximo mensal de produção de lixo. E em apenas quatro meses – entre Junho e Setembro – é quando se produz quase metade de todo o lixo em Portugal num ano. É obra! A justificação é diversa e prende-se com o maior fluxo turístico (nacional e internacional), mais consumo, mais actividade hoteleira e da restauração, entre outros aspectos. Há ainda outro dado a desatacar: 40 por cento de todo o lixo produzido é orgânico e a grande maioria vai para aterro, quando poderia ser valorizado, por exemplo, através de compostagem. Isto explica as dezenas de camiões da Algar que diariamente passam na N2, a caminho do aterro do sotavento, com todos os problemas associados (maus cheiros ou libertação de lexiviados). Algo seriamente mal está aqui a acontecer. A separação de lixos está em níveis baixíssimos e pouco se assiste na tentativa de alterar comportamentos.

Este é também aquele momento do ano em que o normal consumo de água per capita em Portugal se transforma por completo no Algarve! Dos «normais» 150-200L por pessoa / dia, passamos a 400-550L, contabilizando, claro, uso de piscinas, o aumento da actividade hoteleira, a restauração, etc. Tudo o que uma região carente em água devia insistentemente procurar reduzir, mas que aos decisores pouco parece importar quando anunciam mais umas dezenas de milhares de camas turísticas no Algarve, agora para Castro Marim, a juntar aos outros milhares em Carvoeiro, Lagos, Silves ou Vilamoura, apenas para dar alguns exemplos. O por vezes falado «Efeito Cumulativo» é aqui completamente ignorado – tal como em tantas outras questões.

E assim vamos passando os verões, na expectativa que água do mar esteja quente, as sardinhas abundem gordas no mercado, o sol brilhe livre e produza calor, ou que os turistas afluam em gigas para o Algarve e aí gastem muito. Problemas e chatices? Isso logo se vê!

João Ministro é empresário e engenheiro do ambiente

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