Há trabalhos que não se fazem por obrigação, por contrato ou porque alguém nos paga para os fazer. Fazem-se porque há coisas que nos estão demasiado dentro para conseguirmos ficar indiferentes.

Portimão é uma dessas coisas.

Nesta cidade já perdi a conta aos projetos que iniciei. Alguns ficaram pelo caminho, outros ainda vivem e continuam a fazer parte da minha vida, como o Choque Frontal ao Vivo, que, em parceria com o Ricardo Coelho, está prestes a comemorar 10 anos de existência ininterrupta.

Talvez, por isso, já devesse estar habituado a esta forma quase teimosa de fazer coisas em que acredito contra os «velhos do Restelo» ou «velhos do Arade». Mas não estou.

E, nos últimos tempos, eu e todos os que fazemos parte do Marafado (Rúben Arnaut e Paulo Filipe), e da sua rubrica Portimão Tem Muito Para Contar (Nuno Inácio e Miguel Monteiro), temos recebido algo que não estava nos planos, não estava nos guiões e, confesso, não esperávamos com esta dimensão: o carinho das pessoas. Esta nova realidade é tão verdadeira quanto surpreendente. No Mercado Municipal. Na rua. Na praia. No café. No restaurante. Num estabelecimento comercial. Numa conversa inesperada. Num abraço. Num “continue”. Num “estamos a gostar muito”. Num “já faltava há muito algo assim”. Num comentário nas redes sociais. Numa mensagem enviada por alguém que nem conhecemos pessoalmente. E há momentos em que percebemos que aquilo que fazemos deixou de ser apenas nosso.

Passou a ser de todos.

É difícil explicar a emoção de alguém nos abordar, por exemplo, numa fila do Mundo do Café, para falar de um episódio, recordar uma história ou simplesmente agradecer por estarmos a mostrar Portimão como ela merece ser mostrada. Porque é isso que tentamos fazer. Não queremos apenas fazer mais um programa. Não queremos apenas preencher espaço nas redes sociais. Não queremos ser profissionais da televisão, nem fingir que somos aquilo que não somos.

Somos apaixonados.

E talvez seja precisamente essa a nossa maior força. O maior segredo destes dois projetos.

O Marafado e a sua rubrica semanal Portimão Tem Muito Para Contar nascem de uma vontade quase teimosa de contar a nossa terra através das suas pessoas, das suas memórias, das suas histórias, das suas ruas, dos seus lugares e daqueles pequenos episódios que, tantas vezes, ficam esquecidos no tempo. E fazemos tudo de uma forma muito simples. Uma gravação. Sem cortes. Sem teleponto. Sem textos decorados. Sem grandes produções.

Com aquilo que temos, com aquilo que sabemos e, sobretudo, com aquilo que sentimos.

Admitimos que há quem possa olhar para isso e ver apenas amadorismo.

Nós preferimos chamar-lhe autenticidade. Porque quando alguém se senta à nossa frente para contar uma história da sua vida, não queremos que ela pareça ensaiada. E quando estamos numa rua, num lugar ou num recanto histórico da nossa cidade e do nosso concelho, também não queremos fabricar a emoção. Queremos que seja verdadeira. Queremos o brilho nos olhos, a gargalhada inesperada, a emoção que aparece sem aviso e até aquele momento em que a memória procura uma palavra que ficou perdida algures no tempo.

É aí que está a verdadeira riqueza de Portimão.

Nas pessoas. Nas nossas gentes. Naqueles que chegaram, nos que partiram, nos que ficaram e nos que construíram esta cidade muito antes de nós. Nos pescadores, nas conserveiras, nos comerciantes, nos homens e mulheres do mar, nos trabalhadores, nos artistas, nos desportistas, nos que fizeram história sem nunca imaginar que um dia alguém haveria de querer ouvi-la. Portimão tem muito para contar.

E nós sentimos que temos essa obrigação bonita de ajudar a contar. Mesmo quando isso significa roubar horas ao descanso. Mesmo quando significa chegar mais tarde a casa. Mesmo quando significa abdicar de tempo com a família.

Mesmo quando significa fazer tudo sem orçamento, sem equipas, sem grandes meios e, muitas vezes, sem saber exatamente como vamos conseguir fazer o episódio seguinte.

Porque há coisas que não se fazem pelo dinheiro. Fazem-se pelo amor.

E, felizmente, temos recebido o melhor pagamento possível: o reconhecimento de quem nos vê e nos ouve. Esse carinho vale mais do que tudo.

E talvez por isso, quando recebemos uma mensagem particularmente bonita, partilhámo-la uns com os outros com o entusiasmo de crianças que partilham os seus bens mais preciosos.

É nosso. É de todos. E sabe tão bem.

Mas há uma coisa que também aprendemos pelo caminho. A paixão faz muito. A vontade faz ainda mais. Mas os sonhos também precisam de condições para crescer. E quando se fala em promover uma cidade, preservar a sua memória e projetar o seu nome, talvez valha a pena perceber que existem projetos que não precisam de nascer dentro de grandes estruturas para terem valor. Às vezes, basta olhar para aquilo que já está a acontecer. Apoiar. Dar condições. Ajudar a abrir portas. Criar pontes. Porque se conseguimos fazer tudo isto com tão pouco, imaginem o que poderíamos fazer com um pouco mais. E aqui não falamos necessariamente de dinheiro. Não pedimos luxo. Não pedimos protagonismo. Pedimos apenas que se reconheça que estas histórias também são património. Que estas memórias também são cultura. Que estas pessoas também são Portimão. E que apoiar quem conta a nossa história é também investir naquilo que queremos que os outros conheçam sobre nós.

Há cidades que precisam de inventar histórias para se promoverem. Nós temos um problema bem diferente: temos histórias a mais e ainda não conseguimos contar todas. E talvez seja aqui que todos aqueles que amam esta cidade possam fazer a diferença. Nós queremos levar Portimão mais longe. Queremos que quem vive cá se reconheça.

Que quem partiu mate saudades. Que quem chega passe a conhecer. E que quem nunca cá esteve fique com vontade de vir. Queremos falar da cidade com orgulho, mas sem a maquilhar.

Com verdade, com emoção e, quando for preciso, com o nosso inevitável sotaque marafado.

Porque esta não é apenas uma cidade onde vivemos. É uma cidade que se entranhou em cada um de nós.

Está nas nossas palavras. Nas nossas memórias. Nos nossos afetos. Nas nossas histórias. E talvez seja por isso que continuamos. Uma gravação de cada vez. Uma história de cada vez.

Uma pessoa de cada vez. E enquanto houver alguém disposto a parar-nos na rua para dizer “continuem”, continuaremos. Porque esse é o nosso pagamento. O mais bonito de todos.

E porque Portimão merece.

Portimão tem muito para contar. E nós ainda temos muito para ouvir.

Muito obrigado.

Júlio Ferreira é um inconformado encartado

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