Há uma conversa que se repete em cafés e reuniões de associações empresariais, mas raramente chega ao debate público. Um organismo público cria uma empresa pública para prestar serviços que meia dúzia de empresas locais já prestava. Lança uma plataforma, um espaço, uma oferta formativa que o mercado já tinha. E quem lá estava há anos vê-se, de repente, a competir com quem não precisa de ter lucro, não responde ao banco ao fim do mês e, muitas vezes, é também quem licencia, fiscaliza e adjudica.

O silêncio à volta disto não é por falta de opinião. É por cálculo. Poucos empresários querem ficar publicamente contra organismos públicos, locais ou nacionais, quem lhes atribui apoios, licencia a atividade e decide o próximo concurso. Fala-se em privado, encolhem-se os ombros em público.

Falo por experiência própria. Lancei a minha primeira empresa no Alentejo em 2003, aos 18 anos, a vender serviços de criação de websites, uma área que na altura era pioneira em Portugal. Em poucos meses tinha conquistado vários clientes na área do turismo e o arranque estava a correr melhor do que esperava. Até que, de repente, comecei a perdê-los.

Uma empresa municipal tinha lançado serviços idênticos aos meus por um valor simbólico. Em pouco tempo fiquei quase sem carteira de clientes e estive à beira de fechar portas, depois de um início promissor.

A minha revolta tornou-se pública e trouxe-me problemas maiores do que aqueles que já tinha. Acabei por ter de deslocar a empresa para um município vizinho e recomeçar tudo de outra forma.

Aprendi ali duas coisas. A primeira é que, para um pequeno empresário, a revolta é quase sempre pouco produtiva, mesmo quando a razão está toda do nosso lado, quem paga a fatura é sempre o lado mais fraco, o que tem menos poder. A segunda é que, em Portugal, há jogos empresariais que convém conhecer antes de entrar no campo.

A minha evolução empresarial foi sempre feita com perspetivas realistas, porque em Portugal, às vezes, temos de jogar contra quem escreve as regras. É mais comum do que pensamos, e vale a pena dar um exemplo recente.

Falo dos Bairros Comerciais Digitais, projetos de apoio ao comércio tradicional que usam a tecnologia para modernizar as lojas de rua. Na minha opinião, são estratégias com objetivos positivos e que fazem falta ao comércio local. Mas pecam num ponto muito relevante.

Um comerciante que adere ao bairro digital e queira contratar uma empresa local não o pode fazer. Tem de escolher a partir de uma lista fechada de fornecedores acreditados, onde as grandes empresas e multinacionais dominam. Uma medida pensada para ajudar o comércio local acaba, ao mesmo tempo, por excluir as empresas locais que lhe prestariam esse serviço. Um paradoxo muito claro.

Nada disto é um argumento contra o Estado no mercado. Há falhas de mercado reais, territórios onde ninguém investe, serviços que só existem porque alguém público os assumiu. O problema raramente está na intenção. Está no desenho.

Um programa que quer ajudar o comércio local e o afasta da contratação. Uma empresa municipal que entra num mercado onde já havia oferta privada, com uma estrutura de custos que nenhum privado consegue igualar. Em ambos os casos, ninguém decidiu prejudicar as empresas locais. Simplesmente ninguém se lembrou de perguntar que efeito é que aquela medida teria em quem já lá estava.

Mais de vinte anos depois daquele primeiro embate, continuo a achar que o problema não é jogar contra quem escreve as regras. É que as regras se escrevem sem ouvir quem está em campo.

Fábio Jesuíno é empresário

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