Já perdi a conta aos festivais a que fui ultimamente. De música, de literatura, de cinema, de caminhadas, de gastronomia, de artesanato, de dança. E, ainda assim, receio bem estar a perder os melhores.

Há duas semanas estive num festival literário. O evento era bastante pequeno, mas não estranhei. Até porque hoje em dia há festivais de todas as dimensões.

A minha curiosidade começou quando olhei para o programa. Centrava-se sobretudo num escritor. Iniciou com a apresentação do seu mais recente romance, seguida de uma conversa sobre a obra. Rasgaram-se elogios à qualidade e à originalidade, que a leitura de excertos do e pelo escritor não veio confirmar. Má escolha, assumi. Dificilmente somos bons juízes em causa própria. E, pelo sim pelo não, quando a sessão de autógrafos veio coroar o evento, lá estava eu na fila com um exemplar na mão.

Foi aí que encontrei uma pessoa próxima e lhe confessei que nunca tinha ouvido falar do autor e que estava surpreendida com o destaque que tinha no evento. A resposta elucidou-me. O festival era organizado pelo autor para divulgar o seu trabalho. Os oradores, eram convidados, cujas despesas assumia e que lhe faziam o favor de tirar uns dias das suas férias para vir ao Algarve em agosto. Sacrifícios que, como é sabido, só se fazem em nome de um grande talento.

Para não fugir ao espírito da época, a noite foi passada num festival gastronómico. Ou melhor, fui jantar a um restaurante, onde um chef confecionou uma cataplana ao vivo. Enumerou os ingredientes em várias línguas, acrescentou uma frase sobre a importância de valorizar os sabores tradicionais, disse três vezes “sustentabilidade” e o festival ficou despachado.

Como não sou de desistir facilmente, acedi ainda a acompanhar uns amigos a um festival de música. Um minipalco num recinto acolhedor. Cadeiras. Boa iluminação. Uma brisa agradável. De enfiada, quatro cantores lá da terra. O mais velho explicou que todos eram alunos da sua academia, incluindo o rapaz que tocava bateria, ninguém diria que havia apenas dois meses.

Mas sejamos justos. O Festival de Música teve pelo menos um instrumento bem afinado e tocado por um virtuoso: uma rulote onde eram servidas, com igual mestria, imperiais geladas e fabulosos bolinhos de amêndoa em forma de guitarra, violoncelo e saxofone.

Diga-se, a bem da verdade, que, se no resto do ano há imensos festivais, chegado o verão é quase impossível sair à rua sem tropeçar num.

Há dias, uma amiga do Norte, contou-me que, na aldeia dela, a comissão de festas preparara, como todos os anos, a Festa do Emigrante. Estando tudo encaminhado – comida, bebida, música, artesanato – foram surpreendidos com a desaprovação do Presidente da Junta. Segundo ele, era mais do mesmo. As pessoas já estavam fartas e era preciso atrair as novas gerações. Queria uma coisa moderna. Em grande.

Confrontado com questões como o tempo, o número de voluntários e o orçamento, abanou a cabeça incrédulo:

– Que falta de visão! É por isso que as coisas não avançam e o interior está sempre na mesma. Este ano acabou-se a festa. Vamos fazer um festival.

– Um festival? Mas como? – perguntou o diretor da comissão.

- Com um telefonema, homem. Com um telefonema.

E perante o espanto de todos, ligou para os serviços gráficos do município:

– Ó Silva, ó homem, você pegue no cartaz da Festa do Emigrante do ano passado e mude-lhe a data e o nome. Escreva Festival da Diáspora. Com acento no “á”, está a ouvir?

– Festival da Diáspora. – repetiu, encarando a comissão. – Isto é logo outra categoria, caramba!

Sílvia Quinteiro é professora

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