O livro infantojuvenil «O Lápis Azul», da autoria de Laurinda Aguiar da Silva, lançado em Portugal em julho de 2025 pelas edições Vieira da Silva, atravessou o Atlântico e foi recentemente apresentado em diferentes espaços académicos, culturais e educativos do Rio de Janeiro, onde serviu de ponto de partida para sessões de leitura e reflexão em torno do poder das palavras, da liberdade de expressão e do pensamento crítico e filosófico.
A passagem pelo Brasil incluiu a presença no XIII Colóquio Internacional de Filosofia e Educação (CIFE), encontro dedicado à investigação em Filosofia e à sua relação com as infâncias, bem como sessões destinadas ao público mais novo, na Biblioteca Maria Mazzetti (Fundação Casa de Rui Barbosa), e na livraria Instante do Leitor. O livro esteve também presente no Programa de Pós-Graduação em Filosofia e Ensino do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (CEFET/RJ), motivando um encontro com estudantes e docentes e permitindo aprofundar a discussão sobre as potencialidades da literatura infantojuvenil enquanto caminho para o questionamento, diálogo e construção de pensamento.
O périplo brasileiro terminou, a 13 de agosto, com uma apresentação na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), numa sessão intitulada «Conversa Filosófica: uma história, várias perguntas e o ensino de Filosofia para Crianças». A iniciativa reuniu estudantes de Pedagogia e Filosofia, educadores e investigadores, bem como integrantes dos grupos Os Filósofos Mirins e Laboratório Práxis Filosófica, dedicados à prática e investigação em Filosofia com Crianças, sob coordenação de Liliane Sanchez. Para a Professora titular da UFRRJ, “esta obra constitui uma ferramenta particularmente estimulante para o diálogo com o público infantil”. Licenciada em Filosofia, doutorada em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e com um trabalho ligado ao desenvolvimento e coordenação de projetos de extensão nas áreas da Filosofia com Crianças e da filosofia integrada ao quotidiano, Liliane Sanchez considera «O Lápis Azul» “um texto provocativo”. “O seu conteúdo estimula a reflexão do público infantil, e tem um potencial crítico referente aos tempos de outrora e à atualidade, em que o tema da liberdade de expressão, através do seu oposto — a censura —, se faz presente e nos convida à urgência de debates sobre democracia, contemporaneidade, realidade, pós-verdade e as cores do futuro que queremos desenhar”, refere.
Partindo da expressão idiomática portuguesa «lápis azul», associada à censura, a obra tem encontrado no contexto brasileiro um terreno fértil para diferentes interpretações e debates. Ao longo das apresentações, suscitou reflexões não apenas sobre a censura enquanto fenómeno histórico e político, mas também sobre as suas manifestações contemporâneas e sobre os mecanismos através dos quais determinadas ideias, vozes ou formas de conhecimento podem ser silenciadas.
Entre os temas levantados estiveram a crescente digitalização enquanto forma privilegiada — e, por vezes, única — de acesso à informação e ao conhecimento, as consequências dessa transformação, a possibilidade de critérios demasiado estreitos de racionalidade acabarem por excluir determinadas vozes ou formas de expressão do campo do que é reconhecido como pensamento filosófico ou a importância da pergunta no crescimento transformacional de cada um. A autora conclui que a experiência no país da Tropicália demonstrou a capacidade da obra para gerar diferentes olhares e estimular o diálogo entre públicos de idades e formações distintas: “«O Lápis Azul» tem provocado reflexões sobre muitos temas, quer entre investigadores universitários, quer entre os investigadores graduados, precisamente pela sua pouca idade”, indica.
Um dos momentos mais marcantes dos encontros com o público infantil foi a possibilidade de contactar fisicamente com Olímpico, o lápis azul que acompanha a obra, produzido pela histórica marca portuguesa Viarco. A presença do lápis enquanto objeto concreto despertou a curiosidade e o fascínio de crianças e adultos, reforçando uma das dimensões centrais do projeto: partir de um objeto, de uma história e de uma expressão da língua portuguesa para abrir espaço à pergunta, à imaginação e ao pensamento crítico.
A viagem de «O Lápis Azul» ao Brasil revelou, assim, a capacidade de uma obra nascida num contexto português para estabelecer pontes com diferentes públicos e contextos culturais, mantendo no centro questões sempre atuais: quem tem voz e é escutado, quem decide o que pode ser dito, o que significa censurar e como podemos preservar a liberdade de pensar e de nos expressarmos.
