Encostou o carro na rua da estação. Era um homem alto, de bom porte, vestido de fato escuro e gravata, apesar do calor. Antes de sair, viu-se ao espelho, acertou o nó da gravata, passou a mão pelo cabelo e pôs os óculos de sol. Depois fechou a porta e ficou ali, direito, a olhar em frente.

Ela atravessou o pátio da estação e dirigiu-se ao passeio. O olhar percorreu a rua de um lado ao outro, uma vez, depois outra, até se deter no homem de fato escuro, junto à limusina de marca alemã.

Fitou-o.

Ele endireitou-se. Encolheu a barriga e passou os dedos pela poupa. Um ligeiro toque na gravata. Depois ergueu o rosto na direção da desconhecida.

Não havia dúvida: era para ele que olhava.

Ah, se a mulher pudesse vê-lo. Como gostaria que ela estivesse ali!

Casara sem saber muito bem porquê. Nunca fora apaixonado pela namorada. Era-lhe fiel. Esperava o mesmo dela. O casamento era importante. A casa, os filhos, o compromisso.

Mas, nos últimos tempos, o desinteresse da mulher tornara-se evidente. Ela, que sempre se desfizera em declarações de amor eterno. Incompreensível.

Por vezes perguntava-se se não teria casado por amar o amor que ela lhe dedicava. E agora... agora já não o amava. Talvez o suportasse. Desconfiava que nem isso.

Não lhe perdoava a ousadia. Não podia. Era muito atrevimento.

Tirou os óculos de sol. A desconhecida voltou a fitá-lo. Ele sustentou-lhe o olhar.

Encheu o peito.

Há quanto tempo não se sentia desejado?

Só queria que a mulher estivesse ali. Que fosse mosca e assistisse a tudo.

Foi então que a desconhecida atravessou a estrada e avançou decidida na sua direção.

O coração disparou. O estômago deu uma volta. Um nó apertou-lhe a garganta.

Ela sorriu.

— Boa tarde. O meu nome é Marlene.

— Muito gosto. António. O meu nome é António — respondeu, com um fio de voz que mal reconheceu.

— Suponho que seja o motorista que me vem buscar. Estive ali a olhar para si, a tentar perceber se era ou não era... Se me dizia alguma coisa.

António ficou um instante em silêncio.

— Não, não sou eu.

Um gesto brusco afrouxou a gravata. A poupa tombou-lhe sobre os óculos de sol. A barriga cedeu.

Arrancou o casaco, atirou-o para o banco de trás e entrou no carro.

— Raios partam as mulheres!

Sílvia Quinteiro é professora

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