Portugal é um país que se caracteriza por se preocupar imenso com tudo o que funciona e muito pouco com aquilo que precisa de ser feito ou corrigido.
Qualquer atividade ou espaço que esteja em pleno funcionamento torna-se imediatamente alvo de regulamentação, fiscalização, taxação e remodelação. Todos querem deixar a sua marca naquilo que funciona, muitas vezes desprezando os problemas que estão ao lado e que se eternizam até à exaustão.
Quando uma rua ganha movimento, surgem de imediato projetos de uniformização de esplanadas e fachadas, planos para a colocação de vasos e candeeiros, ciclovias e percursos acessíveis, limitações sonoras, códigos de conduta e fiscalização de preços. Os entraves ao seu pleno funcionamento são tantos que, muitas vezes, só há descanso quando os espaços perdem o movimento e ficam votados ao abandono ou entregues à degradação.
Nada escapa a esta torrente de inovação: jardins com árvores frondosas dão lugar a aterros graníticos, sem sombra, mas geometricamente enquadrados; restaurantes e cafés emblemáticos são sujeitos a remodelações sucessivas, até ficarem iguais a todos os outros; espaços de animação e diversão veem a sua atividade limitada, ou mesmo proibida, em nome da proteção dos direitos de terceiros, até se tornarem inviáveis e fecharem portas.
Em Portugal, o preço a pagar pelo sucesso é, demasiadas vezes, a destruição do próprio sucesso. Tudo tem de ser nivelado por baixo, à altura do pasto rasteiro, sem árvores nem arbustos que retirem a vista àqueles que, por inaptidão, preguiça ou falta de ambição, não conseguem vislumbrar para além da linha do horizonte.
O resultado desta perseguição ao sucesso é o descalabro nacional: centros urbanos, antes cheios de vida, hoje moribundos; ruas, estradas e caminhos que parecem ter sido atingidos por uma chuva de meteoritos; passeios com mais ervas junto aos lancis do que muitos canteiros, que deveriam estar floridos, mas foram convertidos em terreiros ressequidos; espaços comerciais com mais estabelecimentos fechados do que abertos.
Como poderemos inverter este caminho de autodestruição?
Portugal só recuperará a projeção mundial que já teve quando dedicar mais atenção, tempo e recursos à resolução dos problemas do que à criação de entraves a tudo o que funciona.
Em suma, Portugal tem de mudar de paradigma: em vez de castigar o sucesso, deve incentivá-lo, apoiá-lo e aprender com ele.
Nuno Campos Inácio é editor e escritor
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