Poucos dias depois, ainda andamos a pensar, rever e sentir sobre o que se passou, aqui tão perto, em Ceuta.
Milhares surgem, num repente, nas águas, tentando chegar à mesma margem, do lado de lá da cerca da fronteira, buscando futuro, mas recebendo a surpresa na deceção que, afinal, não vão ser recebidos como sonharam.
Foi um sonho que causou mortos e impactos internacionais que perduram. Mas também causou imagens que impressionam pelo humanismo das autoridades do lado que foi surpreendido «pelos invasores», ao invés de repulsa e violência.
As imagens dos jovens, num misto de alegria e, depois, desalento.
Imagens, quase pareciam encenadas, por quem os deixou passar para o mar e, a seguir, imediatamente os recolheu pela fronteira terrestre. Como que a mostrar um poder sem o levar mais longe. Bastante para provocar impactos políticos, turbulência e temor internacional.
A mistura de sentimentos é de tal modo forte que é difícil descrever, num breve texto, os efeitos que a prazo podem provocar em cada um de nós e, portanto, nos decisores. Também nas vítimas jovens que participaram na desilusão. Sem fechar os olhos aos abusos que são perpetrados e envergonham a «nossa civilização» sobre alguns dos que ficam provisoriamente…
A desconfiança já nos faz antever nos cuidados redobrados sobre a festa do futebol, marcada para 2030, entre os vizinhos que o acolhem. Que faz repensar nos acordos de associação da UE que privilegiam os investimentos europeus no lado de lá deste Mare Nostrum, em áreas tão importantes quanto a agroindústria, energia, comunicações, farmácia e equipamentos pesados. Por isso, talvez, o movimento de imediato recolhimento na reentrada dos que saíram.
Mas a desconfiança vai persistir pois que a realidade existe. Jovens à procura de futuro, todos. Uns fugindo da guerra na zona do Sahel e Sahara Ocidental e mais longe ainda. Outros beneficiando dos movimentos de angariação mafiosa daqueles esperançados ou para os reterem no lado da fronteira, por ora, indesejada.
Do lado de cá, o medo criado vai cavando a sepultura da democracia às mãos dos populistas e provocando a sepultura dos que, retidos, morrem sem futuro sabendo que somos os carrascos da oportunidade e a barreira para a sua felicidade.
Os eleitos confirmam o medo para ficarem do lado dos eleitores assim instruídos. Dividem-se e degladiam-se pelas imagens que lhes servem, mas que a todos matam um bocadinho mais de cada vez.
Seja aqui, no mediterrâneo, ou na frente atlântica africana, seja no leste da Europa ou junto à Turquia. Vamos todos morrendo e ficando nas mãos dos interesses dos que traficam as necessidades humanas, a quem vamos pagando a chantagem para os reter pelo nosso medo qua aproveitam.
Em 2050 (20 anos nos separam), dos mais de 9,5 mil milhões de pessoas no planeta, na melhor das hipóteses demográficas, seremos apenas 450 milhões de habitantes na Europa.
Como queremos continuar como o continente do progresso e sustentar essa via com o retrocesso social em prol do aumento brusco da defesa ou com o aumento na investigação e conhecimento e no bem-estar? Também poderá ser com o aumento incessante dos pagamentos para fechar e defender fronteiras que hão-de rebentar na violência interna e das hordas que buscarão incessantemente futuro para os seus.
Talvez pudéssemos encarar uma alteração do conceito das «atuais ajudas ao desenvolvimento», que muitas vezes são apenas o oportunismo por aproveitar, ali, a desregulação ambiental e do trabalho que aqui não aceitamos, por uma afirmação da cooperação consequente via ensino, formação e investimento proativo interessado nesses territórios e povos de forma crescente, respeitável nos recursos e lucrativa para todos, de igual para igual.
Podemos alargar os valores da Europa, ganhando território e gente para os ideais, ou pensar que nos vamos defender, até aos dentes, contra a maioria dos nossos vizinhos, até ao soçobrar da democracia e da dignidade humana de que já fomos os superiores paladinos.
Paulo Neves é um «ilhéu», mas nenhum homem é uma ilha
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