Já aqui escrevi em variadas ocasiões sobre o Turismo no Algarve e os desafios que a região enfrenta perante um crescimento ingerível do mesmo. Esta será, provavelmente, a última vez que o faço, pois já quase tudo disse e repeti sobre o assunto e sobre a forma como esta importante indústria afecta o território, em diferentes dimensões, positivamente e negativamente. Expressei, mais do que uma vez, a minha firme convicção de que é urgente planear e gerir responsavelmente esta actividade, nas suas diversas vertentes, tendo em conta a difícil realidade que se vive hoje no Algarve e em Portugal – veja-se o caso da falta de habitação ou do despovoamento do interior, por exemplo – bem como a influência determinante que fenómenos naturais já estão a exercer na mesma, em particular os associados às alterações climáticas.

Em outros momentos, debrucei-me sobre o negócio da construção e do imobiliário que são, indubitavelmente, os grandes motores de transformação da paisagem algarvia e, por ventura, os indutores de alguns dos principais problemas que afectam esta região. E é sobre esses que retomo neste texto.

Começo com uma simples questão: saberá alguém ao certo quantas camas turísticas – incluindo as de hotéis, aldeamentos, apartamentos, residências de luxo ou casas de segunda habitação – estão previstas para o Algarve nos próximos 10 anos? Acredito seriamente que não. Não há quem saiba, hoje, em detalhe, o que se perspectiva para toda a região, na próxima década, em matéria de construção turística e imobiliária, informação essa crítica para qualquer estratégia de planeamento territorial. Neste universo, não me refiro apenas aos empreendimentos que estão em construção, mas também aos que se encontram em vias de se iniciarem, aos aprovados ou em processo de avaliação ou aprovação.

A complexidade com que esta indústria se desenvolve é de tal ordem que torna o processo de reunir toda a informação uma árdua tarefa, herculeana mesmo. Alguns projectos, pela sua dimensão, são sujeitos a processo de AIA e passam pelo crivo de entidades regionais, como CCDR, ICNF ou APA. Outros, ficam apenas pela esfera dos municípios. Há os que não sendo de imediato aprovados, nomeadamente por questões de ordem ambiental, ficam em stand by, em reformulação, para mais tarde regressarem com outra roupagem. Ou ainda aqueles que são divididos ou mesmo desmembrados, para surgirem em partes isoladas, em diferentes fases cronológicas, de forma a evitar efeitos cumulativos. Estes são apenas alguns exemplos que elucidam sobre o quão difícil é reunir informação global do que se passa na região.

Pois bem, foi com o intuito de tentar proporcionar alguns dados quantitativos desta realidade – ainda que de uma forma simples – que recorri aos inteligentes motores de pesquisa de IA e após algumas horas de dialogo com os «amigos» Gemini e ChatGPT (durante as quais especifiquei as perguntas, afinei a pesquisa, acrescentei detalhes e informações), cheguei a alguns números para o Algarve: até 2036 os resultados variam entre o máximo potencial de 66 mil e 750 camas turísticas (que incluem o máximo apresentados em vários empreendimentos ainda sujeitos a aprovação final) a instalar-se no Algarve e as 40 mil com probabilidade efectiva de se instalarem. Estas incluem as diferentes tipologias de ocupação já referidas e em diferentes fases de concretização.

A informação por município dá-nos outras perspectivas interessantes: Castro Marim, por exemplo, surge como um dos concelhos com maior potencial de expansão física de todo o Algarve. Somente aqui existem três grandes empreendimentos instalados (VerdeLago, Monte Rei e Quinta do Vale) – alguns ainda em instalação e expansão – estando mais dois previstos (Almada de Ouro e Corte Velha), como de resto foi publicamente anunciado recentemente pela presidente do município. No total, podemos estar a falar de mais de 5 mil camas turística num concelho que tem pouco mais de 6 mil residentes. Em Loulé, por outro lado, onde a intensidade imobiliária ligada ao turismo já é enorme e amplamente conhecida – bem como o tremendo impacto que tem tido nos preços da habitação – ainda tem em carteira mais uns milhares de camas a instalar. Somente no projecto Vilamoura World falamos em cerca de 1.500 unidades, entre apartamentos, villas, lotes construídos e produto turístico / residencial, em Vale de Lobo mais 500 residências, anunciado pelo promotor, entre outros empreendimentos mais pequenos, ainda assim, somando centenas de novas camas turísticas.

Lagos é outro caso paradigmático. O que foi em tempos uma cidade conhecida pelos encantos naturais, está hoje totalmente rendida ao betão e às massas. Somente aqui estão em construção 4 hotéis, estando ainda outros empreendimentos previstos, totalizando vários milhares de novas camas.

Para quem tiver curiosidade em conhecer melhor esta realidade, basta recorrer a estes motores de pesquisa e ir afinando as perguntas com alguns conhecimentos de causa. Isto é importante, pois os resultados vão sendo mais reveladores. No entanto, mesmo uma simples pesquisa mostra como o Algarve continua a percorrer o mesmo caminho iniciado há décadas, onde a dominância da construção é avassaladora, sem equacionar o futuro que se pretende ou como garantir a sustentabilidade territorial.

E como dizia há dias um jornalista da região, nem todas as crises começam com a ausência. Algumas começam com o excesso. E como tal, há uma séria e inevitável discussão a ser feita, com base em números e factos, e vontade de mudança. Haverá?

João Ministro é empresário e engenheiro do ambiente

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